Heleno e o contador de histórias

Todo fim de tarde passava na minha rua um estranho homem. Sempre de terno azul claro, cara fechada, cabelo ensebado, suando em bicas… Não sorria nunca nem cumprimentava ninguém. Passava apressado, de cabeça baixa e maleta na mão.

Éramos crianças e vivíamos sentados numa esquina observando as pessoas, ríamos de qualquer coisa, e aquele homem de azul era um dos motivos que nos fazia fofoqueiros e felizes.

Até que numa dessas tardes aproximou-se o viúvo aposentado, que sem ter o que fazer vivia a nos contar histórias.  E logo foi falando que aquele homem se chamava Heleno, e que não era bem um homem, mas um sapo disfarçado…

– Um sapo? Como um sapo?  Perguntamos rindo.

— Vocês não têm pai, mãe, irmãos, primos? Alguma vez já viram ele com alguém? Claro que não, mas devem estar pensando…. Sapo não é um batráquio que mora num brejo? É verdade…  agora já repararam como ele se dá mal com o calor?

— Mas sapo adora calor! Logo um de nós retrucou.

O velho aposentado nem deu bola, e  continuou…

— Claro que sim, mas não na pele de um homem. Não com terno, gravata, sapato… Por que acham que ele tem a pele gordurosa, ensebada, e vive molhado, camisa sempre grudada no paletó? Já ouviram sua voz fanhosa, rouca, irritante?

Nenhum de nós tinha ouvido, e ficamos todos a pensar, quietos, enquanto ele seguia contando…

— Reparem que ele não é muito moço, mas velho também ele não é. Reparem no seu cabelo que não muda nunca, a barba cerrada e por fazer, também sempre igual. Depois… ônibus ele não toma, anda e anda e anda, mas seus sapatos também não gastam! Agora devem estar pensando o que isso tudo tem a ver com ele ser um sapo, se não se parece com nenhum, nem é verde, nem respira como um? Bem, isso é lá é outra coisa, nem tudo o que parece é, e vice-versa.

E sem dar nenhum tempo, emendava uma frase na outra…

— Tem uma moça lá aonde ele trabalha, que é minha vizinha. Ela mete paúra só de olhar, vive recolhendo coisas na rua pra fazer mandinga. Certo dia ela esqueceu as chaves na imobiliária, e enquanto ajudava abrir sua porta ela me contou que ele era um próspero e afortunado sapo, que desfrutava de uma vida invejável num alagado lá pelos lados do Cambuci. É o que ela me disse… que ele se envolveu com uma diabinha que tinha dono, e foi a conta quando o enciumado marido cheio dos truques mexeu os pauzinhos e transformou o “Don Juan” num corretor de imóveis. Ela disse também que ele não toma banho, não faz comida, nunca vendeu uma casinha sequer, além de detestar relógios porque cansou de contar as horas pra findar o encanto.

De imediato, um dos meninos perguntou…

—  Mas isso é verdade mesmo? Quanto tempo vai durar esse “encanto”?

—  Ah… isso eu não sei. Falou o viúvo. Mas se não acreditam, por que não inventam uma história qualquer pra se aproximar dele e perguntam o que quiserem?

Ninguém nunca teve coragem, mas durante anos vimos Seu Heleno passando, sempre na mesma hora e do mesmo jeito!

O  aposentado sumiu dali sem avisar ninguém. Mas viúvo sem morta? Por isso não digo nem que sim, nem que não, mas lembro que quando Seu Heleno passava perto da gente, camisa enxarcada e aquele enjoado cheirinho de enxofre e aguapé, não sabíamos bem o que pensar.

Da infância ficaram só lembranças, conversas que tínhamos, dúvidas…  opiniões diferentes. Alguns diziam que um réles sapo se transformar  num humano era dádiva, não desgraça. Outros pensavam diferente, que mais valia o sapo feliz.

4 Comentários em “Heleno e o contador de histórias”

  • LENA comentou no dia 19/07/2010

    QUE RAIVA DESTES DEVANEIOS QUE NÃMALDADEO ME SATISFAZEM A CURIOSIDADE!!!!!!!!!!!SAPO,,, CALOR,,, LEGAL,, CHATO ,,NORMAL ,,MALUCO ,,,E??????????? O QUE INTERESSA ???CADÊ ?????????????AFFFFFFFFFF
    MALDADE!!!!!!!!!!!!

  • LENA comentou no dia 19/07/2010

    TIRA ESTE MALDADE AGARRADO NO NÃO LA EM CIMA!!!!!!!!!!!!BAGUNÇOU MAIS AINDA,,HJ É DIA 

  • Tania comentou no dia 20/07/2010

    Em algumas culturas, o sapo significa prosperidade. Como o sapo do alagado do Cambuci perdeu tudo por uma dona, acho que mais vale o sapo feliz! Pena que o aposentado sumiu. Não saberemos se o encanto findou…

  • Renata Soldato comentou no dia 26/07/2010

    Essas histórias da infância são lindas. Têm aquele QUE de olhinhos bem abertos, curiosos e deslumbrados. A gente precisa tanto disso!

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