A Casa de Arame
Hoje vi nascer uma prisão.
Vi dedos ágeis, manejando fios de aço,
tecer planos pro teu futuro, pássaro!
Penosa habilidade e paciência,
que com trapézios e balanços
tenta enganar a morte com diversão.
Distante dali, um traiçoeiro gorjeio
paralisou teu instinto, pássaro!
E numa arapuca te fez prisioneiro.
Se ao menos desconfiasses,
certamente voarias para onde
não poderiam atrapalhar teu canto.
Agora terás um novo endereço
e pagarás com teu grito de revolta
a enfeitada jaula com comida e água.
Céu de tinta, paisagens emolduradas,
e um novo sol com pingentes de cristal,
as novas coordenadas da casa de arame.
Quanto mais gritares, mais te desejarão.
Mas se por hábito deixares de fazer,
não duvides: apressarão a tua morte!
A eles, pássaro, só serves para isso.
Aquiete-se, então, enganará a todos,
mas não deixes tuas asas atrofiarem.
Esquecerão de ti se pensarem que estás velho,
e distraídos deixarão aberta a porta da tua prisão.
Sabes por onde entra o vento?
Então vá, pássaro! Mergulhe fundo no azul.
É sempre primavera nos arbustos e sustos,
nessa inexplicável alegria do incerto.
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