A modernidade envelheceu com os modernistas

Ah… Sr. Oscar Niemeyer, torço pela sua saúde, admiro sua tenacidade, seu espírito de eterno guerreiro, sua bondade com os necessitados, é mais que um grande arquiteto, construiu sua história não só pela arquitetura, mas pelas ações como ser humano. O Sr. tem um conjunto de obras como nenhum outro vivo, mas aquele “Olho” em Curitiba..! As fotos publicadas mostravam uma poesia, mas fotografias são mesmo doces mentiras, podem mostrar uma flor no campo ao lado de um soldado morto, quem saberia? De perto, esse “Olho” mais parece um peixe num pedestal enorme. Cadê a leveza com aquele pilar que ocupa um terço da obra?

Fiquei muito frustrado ao ver esse peixe. Obra mal feita, a concordância das curvas dos corrimãos das rampas é lastimável, na verdade aquilo é horrível. É certo que arquitetura é surpresa, e é difícil criticar alguém que é um ícone na arquitetura mundial, mas não vou guardar minha opinião num cofre.

Certa ocasião, num debate ao vivo, vi o arquiteto modernista, que fez o projeto da Estação da Sé do metrô de SP, quase humilhar o arquiteto Eolo Maia, que mostrava suas obras pós-modernas lúdicas, curiosas, criativas, inseridas no espaço com rara sensibilidade. Desde então passei a olhar a “modernidade” envelhecida e cansada, díspar com o entorno, com outros olhos.

Caso desse “Olho” construído muitos anos depois do projeto original.

Independemente do valor estético, obras públicas, como diz o nome, são feitas com o dinheiro do povo, não dos governantes. Não adianta a dureza do concreto se vaza água aonde não deve. País tropical com o gradiente de temperatura variando até 20 graus num mesmo dia não há impermeabilização que aguente mais que uns poucos anos, e tudo tem que ser refeito.

O Finlândia Hall, parlamento em Helsinque, de outro modernista não menos famoso, Alvar Aalto, tinha em 1986, dez anos após sua morte, a fachada toda embrulhada numa tela pra não despencar o mármore de carrara, que mais parecia tábuas tortas. O mármore empenou com o frio de Helsinque. Naquele momento pensei: não muito distante dali, em São Petesburgo, os russos embrulham as estátuas de mármore com palha e madeira, esvaziam as fontes, há mais de duzentos anos pra não racharem.

Não faltaria observação por parte dos puristas do modernismo das leis da natureza e respeito com  o dinheiro público? Tenho a impressão que a forma lhes basta, mas se a tecnologia das proteções e dos acabamentos não acompanhou os vôos do imaginário deles, nem eles mudaram sabendo dos problemas, está mais que na hora de se repensar esse modernismo exaurido.

4 Comentários em “A modernidade envelheceu com os modernistas”

  • vitorio borella comentou no dia 07/10/2009

    O velho Oscar merece todo o nosso respeito.
    Por ter feito a obra que fez, pela posição politica única tipo Robin Hood.
    E por gostar tanto de viver, e viver produtivamente.
    Modernismo tem mesmo um destino certo, tornar-se assutador.
    E assusta mesmo, deveria encantar como aquelas fontes que você falou, todas em marmore e que nunca perdem suas utilidades e atualidades, mas o moderno se torna medonho, datado e incomodo. Eu sempre achei que obras modernosas são obras pretenciosas, e diria que nadam de braçada na facilidade da economia de traços. Assim fica fácil até para mim. Algumas se salvam e outras codenam todas as que tentam se salvar. Exemplificando: uma praça Roosevelt leva para um abismo negro toda uma série de outras soluções implantadas na cidade. É como se a Praça Roosevelt fosse um meteoro que ao cair arrebentasse todo o conjunto de obras do mesmo estilo.
    Mas, Meninos não choram. Esssas coisas horriveis todas tem cada uma sua própria história, suas razões para terem sido concebidas e assim como vieram vão sem serem notadas. Não vamos carpilas. Tem uma coisa aqui no Brasil que nunca ira mudar, é o facto de fazer para não conservar. Por quê criam se não vão dar atenção necessária depois? Acho melhor chorar-mos meninos.
    Parabéns Paulo por suas sacações sempre sintonizadas com o momento.

  • vitorio borella comentou no dia 07/10/2009

    Desculpe alguns erritos e ifens incorretos, cliquei sem ler.

  • paulovilela comentou no dia 07/10/2009

    Lendo o que escreveu logo recordei de um artigo da Marilena Chauí, quando era secretária de cultura, referindo-se ao Espaço Cultural Vergueiro, obra premiada pelo desenho (teto tridimensional maravilhoso, que logo depois de inaugurado já passou por reforma; depois, mais reformas e dinheiros jogados no lixo), quando disse que quem gostava de água não eram livros, mas frutas e verduras, que lá tava bom pra abrir um mercado…
    Hahahhhhh

  • Judit comentou no dia 26/11/2009

    Concordo totalmente com o seu ponto de vista sobre o Modernismo Exaurido !

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