A ÚLTIMA FOTOGRAFIA

Os anos fazem grandes estragos na epiderme e na memória. Tessalônica ou Meteora, que importa? Seria preciso a precisão dos limites pra se contar uma história?

Fim de tarde, numa estrada como todas desde a Macedônia, de pedras que os ventos de outono amontoam há séculos, cercada por montanhas desvestidas, exceto por um punhado de retorcidas oliveiras, quando a vista já se acostumara à árdua e lacônica paisagem, do nada surge um rebanho — em fila, centenas de cabras com seus guizos e ruídos, guiadas por um estranho homem e seu cão que mal podia andar. Como o cão, o homem também era franzino, também era cinza. Usava um chapéu furta-cor de mil remendos, e talvez tivesse menos de setenta, talvez muito mais. E ainda que me parecesse menos semideuses e mais semimortos, era tudo de vivo que havia em quilômetros de solidão.

Parei o carro, desci, e por gestos pedi-lhe permissão para uma foto, quando sorriu um sorriso de sim e dentes imaginários. Que figura, meu pai! Pensei logo, de onde veio esse indivíduo? Pra onde se dirigia se ao fim da vista não havia nada além de desfiladeiros e montanhas? Também… que isso me importava? Ou o esbarrar no horizonte com um casebre mudaria algum destino?

Como quem faz pose, entre pedras e cabras, apoiou-se no cajado improvisado, pôs as pernas separadas e o exaurido cãozinho no colo. Bati apenas uma foto. Nem a luz medi. Anoitecia e algo me incomodava. Agradeci várias vezes com a cabeça e entrei no carro.

Ele e seu cãozinho permaneceram imóveis, como as pedras do fundo, como se o “clic” da máquina os tivesse congelados. Esperei um instante, me pus em pé e agradeci novamente. Ele me estendeu a mão pedindo alguma coisa. De imediato pensei em dinheiro, mas foi só enfiar a mão no bolso pra ele balançar negativamente a cabeça e desatar num falatório, num idioma pra mim incompreensível. Acabei entendendo que queria a foto, depois compreendi que também tinha um filho e nenhuma foto. E do cãozinho tampouco tinha alguma. Era  tudo o que queria, só o que queria, e eu não podia. Tentei explicar que dentro da câmara ainda não havia uma fotografia de verdade, mas como fazê-lo diante daquela fisionomia frustrada, inconformada, como se eu o estivesse enganando?

Quanto mais ouvia sua voz suplicante mais me sentia desgraçado. Tentei tudo, peguei até um pedaço papel e uma caneta e fiz por mímica que me escrevesse seu endereço, que lhe mandaria pelo correio… Mas aonde estava eu com a cabeça? Que direção podia me dar o pobre homem? Coordenadas daquela imensa solidão?  De qualquer forma ele não sabia escrever e eu era um ignorante.

Anoiteceu rápido, tudo ali me pareceu absurdo. Nada deu certo e fui embora me sentindo derrotado. Passei dias, meses, pensando em como mandar uma foto pras montanhas de Meteora ou Tessalônica e me lembrei da história dos Fawcett, que à procura do Eldorado desapareceram na floresta amazônica, e o caçula mandou espalhar sobre a selva milhares de panfletos com telefones e fotografias do primogênito e do pai.

Imagino que se alguma foto escapou dos macacos e chegou a um aborígine, de nada valeu: eles não tinham celular, nem falavam inglês. Dinheiro jogado fora, mal congênito da família Fawcett. No meu caso desisti logo da idéia por não ser membro do clã e porque cabras não prestam atenção ao que comem, mas nunca esqueci esse desencontro nem revelei esse filme. Foi a última foto que tirei na vida.

3 Comentários em “A ÚLTIMA FOTOGRAFIA”

  • Suzi Carvalho comentou no dia 02/09/2010

    Sim… agora entendo o que falou..
    Entendo perfeitamente pq conheço sua integridade, coração e sensibilidade…
    Como vc tb pode conhecer como sou, tiraremos a sua “primeira foto” juntos.
    Assim poderá ver que sempre há tempo de recomeçar e com olhos mais fortes e seguros. Tudo tem o início meio e fim, isso em histórias, mas na vida recomeçamos sempre, temos que fazer isso, senão… morremos

  • paula lobao comentou no dia 04/10/2010

    issso nao é uma historia.é um sonho que nos faz ter todas as imagens reveladas.Eu as vi. coloridas e mais, acrecidas de um sentimnto magico. Fixei meus olhos na tela …li, vi, me trasportei e amei. .

  • vitorio comentou no dia 08/10/2010

    Olá, abri seu site para as meninas que trabalham comigo aqui na administração verem seu trabalho, já que estamos a poucos metros de uma das casas que estão no site. Elas estão fazendo caminhada digestiva na hora do almoço e eu então recomendei fazer uma caminha digestiva cultural e recomendei irem ver a casa do Noenio. Mostrei todas as fotos para elas e foi uma sequencia de ai, oh, ui, aff em uma espécie de sequencia orgástica. Mesmo pessoas que nunca tiveram a possibilidade de entrar em um ambiente como os que vc concebe e realiza se sensibilizam diante da beleza de seu trabalho. Elas comentaram que há uma genialidade em sua criação e notaram detalhes primorosos que vc esperamos perpetuou.
    Achei legal mostrar para elas algo tão sofisticado assim
    como achei legal reportar a você a sensação que causa. Precisa que eu diga parabéns?
    Bjs.

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