Arquitetura da Miséria
- 27/08/2009
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Costa Amalfitana, estradinha pra Vítrio, encosta apinhada de pequenas casas e pés de limão, uma das paragens mais lindas do mundo.
Campo Limpo em SP, estrada de M´Boy Mirim, amontoado de pequenas casas cinzas, cor da miséria, uma das paragens mais horríveis do mundo.
Com a sensibilidade que vai além da visão embotada pelo preconceito, e sem o sincretismo simplório que mistura tudo, a arquitetura da miséria tem lá suas semelhanças com a Costa Amalfitana. Como aquela, também não segue as normas fixadas pelos doutos que criam os parâmetros do urbanismo. É anárquica em todos os sentidos, porque também não segue as regras formais da construção, nasce de uns riscos no chão, sobe rápido porque é simples, tudo perfeitamente de acordo com um único parâmetro — a necessidade e a falta de recursos.
Ao contrário da arquitetura formal, onde o engenheiro e o arquiteto, além, claro, do proprietário, quebram a cabeça pra criarem um dormitório a mais, levando em conta os acessos, as leis etc., a arquitetura da miséria é extremamente dinâmica, e é modificada a cada rebento que nasce, quase uma “obra aberta”. Houvesse uma palavra que definisse esse estilo sem estilo, poderia ser a “arquitetura do puxadinho”.
Não dá certo escada por dentro, come o espaço da TV? Sem problemas… escada pra fora. Chove quando sobe? Sem problemas… mais um “puxadinho”.
Mais original que as obras da realeza, esse conjunto cinza de blocos de cimento e telhas de fibro-cimento, sem acabamento, sem detalhes, que sobe e desce montanhas, é horrível no seu todo não por falta de criatividade, falta cor!
Imagino se em vez de se colocar tapumes nas avenidas pra esconder os “puxadinhos”, como fez o Lacerda no Rio de Janeiro, o Estado transferisse recursos inúteis, como por exemplo, do Senado. Ou os bancos fizessem um esforcinho… Imagino todos os milhares de “puxadinhos” do país com paredes rebocadas e pintadas com a cor da vontade de cada um… E teríamos uma estética anárquica, que fugiria da mesmice, única no mundo dado as proporções. Cor é alegria, bem estar, transforma as pessoas, e isso não é uma gozação, muito menos uma piração, mas alguém vai dizer que é tampar o sol com a peneira, que o problema é muito mais em baixo num país que falta tudo, como se eu não soubesse.
Num Estado de parlamentares e governantes meia-bocas estamos muito longe de substituir os “puxadinhos” por algo mais digno, não obstante há leis de incentivo à cultura, museus, estátuas em praças públicas. O que é esse esforço estético se não para o deleite da alma humana, enfeites que encantam ou enfeitiçam, que têm o poder de transformação? Então por que não colorir e dar vida aos “puxadinhos”?
4 Comentários em “Arquitetura da Miséria”
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Recebi recentemente um pps de fotos de varias regiões da Italia. Casas penduradas em penhascos, ruelas e declives crueis. Pinturas em tons hamônicos e muita vegetação antiga, isto é, vegetação incrustrada e integrada à arquitetura. Perguntei ao meu primo que me havia enviado o e-mail e é apaixonado pela Italia, porque o feio deles era tão bonito e o nosso feio era tão horrivel. Porque os italianos de 3ª ou 4ª geração ao inves de ensinar arquitetura aos brasileiros havia absorvido a pobre arquitetutra urbana de cá. Não lembro a resposta, mas acho que não existe resposta. Acho que Deus tem um propósito prá nós. Ele quer que a gente sofra bastante vendo casas de tijolo baiano sem acabamento com caixa d´agua azul de fibra de vidro cheia de canos marrons espetados, prá quando a gente puder ver uma paisagem italiana ou um lindo campo francês, ou um bosque alemão, ou um penhasco grego, a gente saiba, mais ainda, tenha a certeza que beleza e arte não se fazem com orgulho e presunção, mas sim com suor e calos nas mãos. E claro, cultura, bom gosto e desejo de fazer algo que de orgulho aos filhos e netos e não ficar remediando na habitação e pagando carro zero em 190 meses e colecionando celulares.
Abçs. Parabéns pelos excelentes textos.
Grazie Vitório.
Acho que a solução mais simples é usar um óculos embaçado que transforme o hiper-realismo em impressionismo!
So uma coisa define a diferença, a falta de dinheiro. O brasileiro é um artista nato um engenheiro, um pintor, um mecanico um tudo.pq neste pais, ha que ser de circo. Logico! a costa Malfitana é a coisa mais linda do mundo. Mas ha mar, casas que mesmo simplorias sao um basamo aos olhos. Brasil? Meus amigos…nao ha $ pra comprar a tinta, o puxadinho é rapido e pratico. O que eles querem , é que haja uma escada ,mais um quarto ,uma gambiarrra e tem tv a cabo. O resto nao dá. Entao toma se uma pinga a mais conta se uma piada mostra se um riso enscancarado sem dentes, conta se uma piada do ultimo acontecimento barbaro,e faz se um sambinha arrretado. Esta é a diferença. A ¨boca¨em Buenos Ayres esta com as casinhas pintadas ao “lareú” como s diz em Portugal.e ficou bonita . acho que poderia ter tido mais gosto, mas tornou se um lugar turistico e deu certo. Cada um ..cada um
É, Dna Paula… brasileiro é de circo sim. Os palhaços tão lá em Brasília, a maioria do resto, sem grana, criativos, espalhados por aí. La Boca, nem pensei naquilo, lugar dos genoveses, meia dúzia de casinhas estudadas no exagerado colorido, tem jeito de tango, espertinhos, vão milhões olhar aquilo.