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	<title>Paulo Vilela &#187; Artigos</title>
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	<description>Arquiteto Pós-moderno</description>
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		<title>A ÚLTIMA FOTOGRAFIA</title>
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		<pubDate>Thu, 02 Sep 2010 16:08:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulovilela</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Os anos fazem grandes estragos na epiderme e na memória. Tessalônica ou Meteora, que importa? Seria preciso a precisão dos limites pra se contar uma história? 
Fim de tarde, numa estrada como todas desde a Macedônia, de pedras que os ventos de outono amontoam há séculos, cercada por montanhas desvestidas, exceto por um punhado de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Os anos fazem grandes estragos na epiderme e na memória. Tessalônica ou Meteora, que importa? Seria preciso a precisão dos limites pra se contar uma história?<strong><em> </em></strong></p>
<p>Fim de tarde, numa estrada como todas desde a Macedônia, de pedras que os ventos de outono amontoam há séculos, cercada por montanhas desvestidas, exceto por um punhado de retorcidas oliveiras, quando a vista já se acostumara à árdua e lacônica paisagem, do nada surge um rebanho &#8212; em fila, centenas de cabras com seus guizos e ruídos, guiadas por um estranho homem e seu cão que mal podia andar. Como o cão, o homem também era franzino, também era cinza. Usava um chapéu furta-cor de mil remendos, e talvez tivesse menos de setenta, talvez muito mais. E ainda que me parecesse menos semideuses e mais semimortos, era tudo de vivo que havia em quilômetros de solidão.</p>
<p>Parei o carro, desci, e por gestos pedi-lhe permissão para uma foto, quando sorriu um sorriso de sim e dentes imaginários. Que figura, meu pai! Pensei logo, de onde veio esse indivíduo? Pra onde se dirigia se ao fim da vista não havia nada além de desfiladeiros e montanhas? Também&#8230; que isso me importava? Ou o esbarrar no horizonte com um casebre mudaria algum destino?</p>
<p>Como quem faz pose, entre pedras e cabras, apoiou-se no cajado improvisado, pôs as pernas separadas e o exaurido cãozinho no colo. Bati apenas uma foto. Nem a luz medi. Anoitecia e algo me incomodava. Agradeci várias vezes com a cabeça e entrei no carro.</p>
<p>Ele e seu cãozinho permaneceram imóveis, como as pedras do fundo, como se o “clic” da máquina os tivesse congelados. Esperei um instante, me pus em pé e agradeci novamente. Ele me estendeu a mão pedindo alguma coisa. De imediato pensei em dinheiro, mas foi só enfiar a mão no bolso pra ele balançar negativamente a cabeça e desatar num falatório, num idioma pra mim incompreensível. Acabei entendendo que queria a foto, depois compreendi que também tinha um filho e nenhuma foto. E do cãozinho tampouco tinha alguma. Era  tudo o que queria, só o que queria, e eu não podia. Tentei explicar que dentro da câmara ainda não havia uma fotografia de verdade, mas como fazê-lo diante daquela fisionomia frustrada, inconformada, como se eu o estivesse enganando?</p>
<p>Quanto mais ouvia sua voz suplicante mais me sentia desgraçado. Tentei tudo, peguei até um pedaço papel e uma caneta e fiz por mímica que me escrevesse seu endereço, que lhe mandaria pelo correio&#8230; Mas aonde estava eu com a cabeça? Que direção podia me dar o pobre homem? Coordenadas daquela imensa solidão?  De qualquer forma ele não sabia escrever e eu era um ignorante.</p>
<p>Anoiteceu rápido, tudo ali me pareceu absurdo. Nada deu certo e fui embora me sentindo derrotado. Passei dias, meses, pensando em como mandar uma foto pras montanhas de Meteora ou Tessalônica e me lembrei da história dos Fawcett, que à procura do Eldorado desapareceram na floresta amazônica, e o caçula mandou espalhar sobre a selva milhares de panfletos com telefones e fotografias do primogênito e do pai.</p>
<p>Imagino que se alguma foto escapou dos macacos e chegou a um aborígine, de nada valeu: eles não tinham celular, nem falavam inglês. Dinheiro jogado fora, mal congênito da família Fawcett. No meu caso desisti logo da idéia por não ser membro do clã e porque cabras não prestam atenção ao que comem, mas nunca esqueci esse desencontro nem revelei esse filme. Foi a última foto que tirei na vida.</p>
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		<title>Asas do Desejo</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Aug 2010 13:52:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulovilela</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Voas tão alto, tão leve, tão rápido,
que nem a luz pode alcançá-lo.
Vem a cada instante com uma imagem,
que nem é uma foto, nem uma pintura,
nem mesmo um rascunho.
Como um esboço sem forma,
só se forma dentro de mim.
Falas tão baixo, tão longe, tão frágil,
tão de dentro, tão do escuro,
que se mistura ao silêncio da noite,
nem os [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Voas tão alto, tão leve, tão rápido,</p>
<p>que nem a luz pode alcançá-lo.</p>
<p>Vem a cada instante com uma imagem,</p>
<p>que nem é uma foto, nem uma pintura,</p>
<p>nem mesmo um rascunho.</p>
<p>Como um esboço sem forma,</p>
<p>só se forma dentro de mim.</p>
<p>Falas tão baixo, tão longe, tão frágil,</p>
<p>tão de dentro, tão do escuro,</p>
<p>que se mistura ao silêncio da noite,</p>
<p>nem os cães podem ouvi-lo,</p>
<p>mas mudo também não és.</p>
<p>Como uma voz sem voz,</p>
<p>sopra palavras que ela nunca disse.</p>
<p>Que parte de mim carregas,</p>
<p>que parte dela me trazes?</p>
<p>Que ora fico alegre, triste, excitado,</p>
<p>longe&#8230; como se não ela existisse,</p>
<p>tão perto como se estivesse em mim.</p>
<p>Passo o dia todo te recebendo,</p>
<p>o que queres mais?</p>
<p>Tenhas piedade de mim,</p>
<p>já não levaste meu sorriso,</p>
<p>minha fome, o azul de maio?</p>
<p>O que fizeste com o canto das águas,</p>
<p>o gorjeio das cambaxirras da minha janela?</p>
<p>Não quis meus dedos, tampouco minha coragem,</p>
<p>o que mais posso te dar?</p>
<p>Meu instinto perdeu-se quando me traí.</p>
<p>Não és o anjo nascido do meu desejo,</p>
<p>e agora sei que não posso mesmo contigo.</p>
<p>&#8212; quando o sol se esconder,</p>
<p>as estrelas descerem e se acalmarem,</p>
<p>o breu tomar conta de tudo,</p>
<p>trazes pra mim a outra parte dela.</p>
<p>Depois?  Depois&#8230; podes me levar inteiro</p>
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		<title>O país andando de cabeça baixa&#8230;</title>
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		<pubDate>Thu, 22 Jul 2010 22:54:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulovilela</dc:creator>
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		<category><![CDATA[crimes]]></category>
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		<category><![CDATA[ONGs]]></category>

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		<description><![CDATA[“Isso não se faz, mas aquela merecia, porque não valia nada”
Aí está embutido tudo que de pior existe &#8212; moral perniciosa, preconceito e culpa&#8230; Porque prevaricava então não devia permanecer no mundo dos vivos, mas matar é transgredir um dos mandamentos fundamentais da Igreja.
Ante a ordem social de justiça, o que importa são os fatos. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>“Isso não se faz, mas aquela merecia, porque não valia nada”</p>
<p>Aí está embutido tudo que de pior existe &#8212; moral perniciosa, preconceito e culpa&#8230; Porque prevaricava então não devia permanecer no mundo dos vivos, mas matar é transgredir um dos mandamentos fundamentais da Igreja.</p>
<p>Ante a ordem social de justiça, o que importa são os fatos. Matar uma criança ou uma puta tanto faz, não há atenuantes se for crime premeditado. E se à primeira vista a condenação vai se atenuando e se transformando em quase perdão, também pouco importa. Tudo isso é horrível de qualquer maneira.</p>
<p>Como os filmes de terror com cenas macabras que são sucesso certo de bilheteria, crimes hediondos que ocorreram ali na esquina, e o seu desenrolar, é ibope também em qualquer mídia, quando a população acompanha o desfecho como uma novela ou uma copa do mundo.</p>
<p>Acostumados a votar nos BBs, tudo é pano pra manga. Se não se pode com a violência real, no aconchego do lar tudo é permitido e heróico. E cada vez mais afastamos a possibilidade de termos um país de cabeça erguida. Como na Idade Média vão surgindo feudos (condomínios fechados, isolados por grades, com  seguranças privados, câmaras, alarmes&#8230;). Falta pouco pra vermos um fosso com ponte elevadiça.</p>
<p>Nas capitais e mesmo nos mais recônditos cantos do país vive-se em estado de paúra. Pessoas caminham ou dirigem assustadas com qualquer um que se aproxime sem motivo aparente, mas uma vez nos seus guetos renascem das cinzas e transformam-se em juízes, policiais, torturadores. Nessas condições não existe enfrentamento, ao contrário, o distanciamento virtual os faz entrar numa espécie de catarse invertida ao evocarem ódios reprimidos e normalmente torcer pela maldição dos acusados. A mídia sempre ávida por ibope (leia-se lucros), reparte esse horror em capítulos.</p>
<p>Éramos 90milhões em ação, quem não se lembra disso? Em 40 anos a população quase triplicou, e os números da violência se multiplicaram por 10. Aqueles guris da época poderiam ser hoje a força produtiva do país se tivessem investido em educação, mas os tecnocratas da Ditadura investiram em energia, em telefonia, e ajudaram a criar assassinos “iluminados” e com tecnologia. Foi isso que se fez e ninguém que veio depois mudou essa história.</p>
<p>Não há outra solução que não seja por um grande projeto educacional, mas grande mesmo, nada pra melhorar estatística ou por aí. Que se lasquem as estradas, o velhos, os doentes! Que se lasquem as milhares de ONGs, que se prendam os ladrões de gravata e façam devolver os dinheiros!</p>
<p>Quem crê que é a polícia que tem que ser melhor equipada, deve lembrar que quem luta contra a comida, se esforça, mas a comida ganha. Sem mudança radical de postura tudo é dinheiro jogado fora. E não se pode mais desperdiçar dinheiro, é preciso de muito pra fazer o que se deve.</p>
<p>A publicidade premiadíssima do país, feita por meia dúzia que teve acesso à educação, podia ajudar, não só mostrar o sucesso, o prazer, ligados a ícones que só o dinheiro pode comprar, porque nesses moldes consumistas quem não tem, quer ter, se lhes falta tudo &#8212; estudo, bife, dente, grana, vão ter de qualquer jeito, e todos sabem de que jeito é. Eu ainda não morri assassinado e ainda sonho com um país de cabeça erguida.</p>
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		<title>Heleno e o contador de histórias</title>
		<link>http://www.paulovilela.com.br/886/</link>
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		<pubDate>Mon, 19 Jul 2010 07:29:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulovilela</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Todo fim de tarde passava na minha rua um estranho homem. Sempre de terno azul claro, cara fechada, cabelo ensebado, suando em bicas&#8230; Não sorria nunca nem cumprimentava ninguém. Passava apressado, de cabeça baixa e maleta na mão.
Éramos crianças e vivíamos sentados numa esquina observando as pessoas, ríamos de qualquer coisa, e aquele homem de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Todo fim de tarde passava na minha rua um estranho homem. Sempre de terno azul claro, cara fechada, cabelo ensebado, suando em bicas&#8230; Não sorria nunca nem cumprimentava ninguém. Passava apressado, de cabeça baixa e maleta na mão.</p>
<p>Éramos crianças e vivíamos sentados numa esquina observando as pessoas, ríamos de qualquer coisa, e aquele homem de azul era um dos motivos que nos fazia fofoqueiros e felizes.</p>
<p>Até que numa dessas tardes aproximou-se o viúvo aposentado, que sem ter o que fazer vivia a nos contar histórias.  E logo foi falando que aquele homem se chamava Heleno, e que não era bem um homem, mas um sapo disfarçado&#8230;</p>
<p>&#8211; Um sapo? Como um sapo?  Perguntamos rindo.</p>
<p>&#8212; Vocês não têm pai, mãe, irmãos, primos? Alguma vez já viram ele com alguém? Claro que não, mas devem estar pensando&#8230;. Sapo não é um batráquio que mora num brejo? É verdade&#8230;  agora já repararam como ele se dá mal com o calor?</p>
<p>&#8212; Mas sapo adora calor! Logo um de nós retrucou.</p>
<p>O velho aposentado nem deu bola, e  continuou&#8230;</p>
<p>&#8212; Claro que sim, mas não na pele de um homem. Não com terno, gravata, sapato&#8230; Por que acham que ele tem a pele gordurosa, ensebada, e vive molhado, camisa sempre grudada no paletó? Já ouviram sua voz fanhosa, rouca, irritante?</p>
<p>Nenhum de nós tinha ouvido, e ficamos todos a pensar, quietos, enquanto ele seguia contando&#8230;</p>
<p>&#8212; Reparem que ele não é muito moço, mas velho também ele não é. Reparem no seu cabelo que não muda nunca, a barba cerrada e por fazer, também sempre igual. Depois&#8230; ônibus ele não toma, anda e anda e anda, mas seus sapatos também não gastam! Agora devem estar pensando o que isso tudo tem a ver com ele ser um sapo, se não se parece com nenhum, nem é verde, nem respira como um? Bem, isso é lá é outra coisa, nem tudo o que parece é, e vice-versa.</p>
<p>E sem dar nenhum tempo, emendava uma frase na outra&#8230;</p>
<p>&#8212; Tem uma moça lá aonde ele trabalha, que é minha vizinha. Ela mete paúra só de olhar, vive recolhendo coisas na rua pra fazer mandinga. Certo dia ela esqueceu as chaves na imobiliária, e enquanto ajudava abrir sua porta ela me contou que ele era um próspero e afortunado sapo, que desfrutava de uma vida invejável num alagado lá pelos lados do <a title="cambuci" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Cambuci_%28distrito_de_S%C3%A3o_Paulo%29" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Cambuci_28distrito_de_S_C3_A3o_Paulo_29?referer=');">Cambuci</a>. É o que ela me disse&#8230; que ele se envolveu com uma diabinha que tinha dono, e foi a conta quando o enciumado marido cheio dos truques mexeu os pauzinhos e transformou o “Don Juan” num corretor de imóveis. Ela disse também que ele não toma banho, não faz comida, nunca vendeu uma casinha sequer, além de detestar relógios porque cansou de contar as horas pra findar o encanto.</p>
<p>De imediato, um dos meninos perguntou&#8230;</p>
<p>&#8212;  Mas isso é verdade mesmo? Quanto tempo vai durar esse “encanto”?</p>
<p>&#8212;  Ah&#8230; isso eu não sei. Falou o viúvo. Mas se não acreditam, por que não inventam uma história qualquer pra se aproximar dele e perguntam o que quiserem?</p>
<p>Ninguém nunca teve coragem, mas durante anos vimos Seu Heleno passando, sempre na mesma hora e do mesmo jeito!</p>
<p>O  aposentado sumiu dali sem avisar ninguém. Mas viúvo sem morta? Por isso não digo nem que sim, nem que não, mas lembro que quando Seu Heleno passava perto da gente, camisa enxarcada e aquele enjoado cheirinho de enxofre e aguapé, não sabíamos bem o que pensar.</p>
<p>Da infância ficaram só lembranças, conversas que tínhamos, dúvidas&#8230;  opiniões diferentes. Alguns diziam que um réles sapo se transformar  num humano era dádiva, não desgraça. Outros pensavam diferente, que mais valia o sapo feliz.</p>
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		<title>O QUE É O HOMEM SEM SEU SONHO?</title>
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		<pubDate>Sat, 10 Jul 2010 12:17:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulovilela</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Tudo que ele queria era construir uma casinha, sair daquele barraco de tábuas e latas, ter um lugar sólido numa rua com nome e cep. Era tudo o que queria, mas não podia. Como ladrão ele não era, então sonhava &#8212; punha o filho nas costas, descia o morro e caminhava pelas ruas arborizadas e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tudo que ele queria era construir uma casinha, sair daquele barraco de tábuas e latas, ter um lugar sólido numa rua com nome e cep. Era tudo o que queria, mas não podia. Como ladrão ele não era, então sonhava &#8212; punha o filho nas costas, descia o morro e caminhava pelas ruas <a href="http://www.dicio.com.br/arborizado/" target="blank_" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.dicio.com.br/arborizado/?referer=');">arborizadas</a> e bem cuidadas do bairro, perguntando ao menino qual daquelas ele preferia, mas defeitos tinham todas, nenhuma servia.</p>
<p>E sempre que passavam por um certo terreno vazio, ali se detinham a construir a casa ideal. Muitas vezes nos fins de semana, passeando com meu cão, vi este senhor gesticulando com as mãos, construindo seu sonho&#8230; explicando em voz alta ao garoto como ia ser. Arquiteto nato, ele logo me lembrou o personagem “pedinte” do Dodeskaden (filme de Akira Kurosawa), que vivia com o filho num carro abandonado e sonhava com uma construção ocidental, sólida e cheia de requintes, diferente das convencionais casas japonesas.</p>
<p>Num fim de tarde meio chuvoso me aproximei deles. Curioso, mas com certo receio, cumprimentei-os e me apresentei como arquiteto, ao que, gentilmente, o Senhor disse já me conhecer e ao meu cão também, e que nessa fase da obra não precisava de ajuda, o que lhe faltava era só um pouco de dinheiro&#8230;</p>
<p>Uns dois anos depois, caminhando só, meu cão tinha morrido, novamente cruzei com eles em frente ao mesmo terreno vazio. O menino crescera, devia estar com uns sete ou oito anos, e agora já fazia perguntas ao pai. &#8212; Por que não pode ser vermelha? Antes que encontrasse a resposta o Senhor me cumprimentou, e aproveitei pra saber  como ia a casa. &#8212; No finzinho&#8230; Respondeu e completou &#8212; Só estamos decidindo as cores (apontando pro menino). &#8212; Pai, por que não pode ser vermelha? Insistiu o garoto. &#8212; O que o Sr acha? Ele me perguntou. &#8212; Vermelha? Eu disse. &#8212; Sim, por fora ele quer inteira vermelha&#8230;</p>
<p>O que eu ia dizer? Que era bom, que era ruim, que era estranho..? Quem era eu pra interferir naqueles destinos? E em vez de responder, fiz outra pergunta, como seriam as plantas. Dessa vez foi o menino que prontamente se adiantou &#8212; São todas brancas e pratas, e as flores azuis, igual a grama. &#8212; Oh&#8230; então vermelha vai ficar linda. Disse. Olhos franzidos, pensativo, o Senhor olhava as bactérias do ar como se não estivesse muito certo disso. Nesse momento me despedi deles e segui minha caminhada.</p>
<p>Nunca mais os vi. Até que um dia, seis horas da manhã, passeando com um outro cão, diante daquele terreno vago um jovem moreninho lá com seus dezesseis anos rabiscava algo numa prancheta. &#8212; Bom dia. Eu disse. &#8212; Cadê seu pai? Ele me olhou sem me reconhecer &#8212; Meu pai, o Sr conhecia ele? &#8212; Sim, sempre vocês vinham aqui&#8230; &#8212; Ah sim, agora acho que me lembro do Sr., meu pai morreu faz oito anos, levou um tiro da polícia quando voltava do trabalho. &#8212; Sinto muito. Disse. &#8212; Sabe que pensei nele esses anos todos, e por que levou um tiro? Perguntei. &#8212; Foi por engano, ele trabalhava à noite numa fábrica, voltava pra casa, estava escuro, ninguém explicou pra gente o que aconteceu. &#8212; E o que faz aqui, agora? Perguntei mais uma vez. &#8212; Estou mudando algumas coisas na nossa casa&#8230; Me desculpe, senhor, mas tenho que terminar isso, tá quase na hora de entrar no meu trabalho. &#8212; Claro, eu é que me desculpo, só queria saber se ainda vai ser vermelha. &#8212; Ah&#8230; não, papai nunca gostou dessa idéia&#8230;</p>
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		<title>Uma tal Claudia</title>
		<link>http://www.paulovilela.com.br/uma-tal-claudia/</link>
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		<pubDate>Wed, 09 Jun 2010 00:16:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulovilela</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Nem tudo que se escreve é entendido por todos, algumas coisas talvez nenhum possa.
Dia desses, madrugada fria, num desses lugares que não sabemos ao certo aonde fica, nem se fica, por isso digo acho que conversei com uma loira alta, inteligente, seletiva, que se disse chamar Claudia. Comecei perguntando se era tudo verdade. Nada respondeu. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nem tudo que se escreve é entendido por todos, algumas coisas talvez nenhum possa.</p>
<p>Dia desses, madrugada fria, num desses lugares que não sabemos ao certo aonde fica, nem se fica, por isso digo acho que conversei com uma loira alta, inteligente, seletiva, que se disse chamar Claudia. Comecei perguntando se era tudo verdade. Nada respondeu. Pensei a princípio que escutasse mal e insisti várias vezes até que ironicamente ela acabou abrindo a boca e disse que eu tinha lido a bíblia inteira sem sua permissão.</p>
<p>Isso não era não era bem uma verdade, mal conheço a bíblia, mas surda ela também não era, nem muda, meio estapafúrdia talvez, quando falou que adornava sapatos. Entendi que adorava sapatos; desfeito o mal-entendido disse que adornava o próprio adorno, que era ela mesma, e citou um pensamento de Platão. Fiquei na mesma.</p>
<p>Aquele vagão só tinha gente louca, mas ela não era louca, nem eu. E como tal, não suportava a idéia de terminar o que nem começou, numa estação chamada  Céu &#8212; esse lugar aprazível, de cálidas temperaturas, som de harpas, aonde anjos desbotados voam só por voar.</p>
<p>Vá lá que ela tinha alguma razão, que essa paz sempiterna seja mesmo <a title="enfadonho" href="http://www.dicio.com.br/enfadonho/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.dicio.com.br/enfadonho/?referer=');"> enfadonha </a> pra nós que convivemos com o trânsito, guerras, esses tipos de vampiros de sangue RH-Nada, conhecidos como políticos, etc.</p>
<p>Há que se pensar bem nesse assunto antes de escolher a estação que vamos desembarcar. Sugeri que descesse no Purgatório, ao que prontamente recusou. Aí fui um estúpido e dou razão total a ela, não faz sentido pagar o dobro pra se ir aonde não se quer e ter o que não se deseja. Todos sabem que só restou uma opção: o Inferno, com seus vermelhos vibrantes, suas fogueiras&#8230;</p>
<p>Falei que isso doía, ela riu, disse que só doía pros outros. E completou que seu <em>gene</em> vinha do Nero (aquele imperador romano que vivia bêbado e gostava de pôr fogo em tudo). Bem, aí pensei, pensei, mas nem foi tanto, já estava desconfiado quando ela completou que era uma parente afastada do capeta.</p>
<p>Nessa hora ri pra valer, imaginei aquela loira alta ajeitando as brasas, e com um garfo gigante espetando os &#8220;pobres&#8221; &#8230; Devia era ser bem boazinha, ao que lendo meus pensamentos, instantaneamente respondeu “vai pensando&#8230;”  Ops!</p>
<p>Ao fundo&#8230;. os agudos do <a title="Ozzy" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Ozzy_Osbourne" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Ozzy_Osbourne?referer=');"> Ozzy Osbourne </a>, e adoro fogueiras, mas daí ficar de conversa fiada com uma chegada do demônio, eu que nunca ouvi nenhum parente do divino&#8230; sei lá, mas nem um santo se passando pelo capeta, nem um capeta travestido de santo me pegam, até hoje só fui de ateu a agnóstico.</p>
<p>Queria ter feito uma última pergunta, a mesma que comecei, se era tudo verdade, a resposta não importava. Mas as luzes do trem se apagaram, só ouvi o último grito do Ozzy e ela sumiu.</p>
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		<title>Penso, logo pergunto!</title>
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		<pubDate>Wed, 02 Jun 2010 02:30:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulovilela</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O homem não é o único a embarcar em estranhos portos e viajar pelo inaudito entre um dormir e um acordar, mas certamente entre um acordar e um dormir é parte da sua sina um outro sonhar. É o único ser que não se aquieta sem perguntas.
Animais não se perguntam nada, seguem o exemplo do sol [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O homem não é o único a embarcar em estranhos portos e viajar pelo <a title="inaudito" href="http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=inaudito" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=inaudito&amp;referer=');">inaudito</a> entre um dormir e um acordar, mas certamente entre um acordar e um dormir é parte da sua sina um outro sonhar. É o único ser que não se aquieta sem perguntas.</p>
<p>Animais não se perguntam nada, seguem o exemplo do sol que não pede permissão pra entrar pelas janelas, ou da chuva que molha o quanto quer e o que bem entende. Árvores também não fazem perguntas. Nem as sementes dos desertos se perguntam, fingem-se de mortas por anos à espera de um pingo d`água para florescer.</p>
<p>Mas o homem quer respostas pra tudo que não compreende, por isso mesmo não compreende muito bem nada.</p>
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		<title>O FILME &#8220;CINEMA PARADISO&#8221;</title>
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		<pubDate>Thu, 27 May 2010 00:46:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulovilela</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A paixão pelo cinema do menino Totó (Salvatore) e sua amizade com o projecionista Alfredo, que depois de um incêndio com o projetor (que também destrói o cinema), fica cego e muito ferido, e é ajudado pelo garoto quando a pequena cidade reconstrói o cinema, por isso IL NUOVO CINEMA PARADISO.
A única diversão daquela gente, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A paixão pelo cinema do menino Totó (Salvatore) e sua amizade com o projecionista Alfredo, que depois de um incêndio com o projetor (que também destrói o cinema), fica cego e muito ferido, e é ajudado pelo garoto quando a pequena cidade reconstrói o cinema, por isso IL NUOVO CINEMA PARADISO.</p>
<p>A única diversão daquela gente, antes do evento da TV, é o cinema aos domingos e feriados. Como &#8220;prisioneiros da alegria dos outros&#8221; aos projecionistas não há folgas possíveis. Afredo é ranzinza, mas tem um grande coração, enxerga longe mesmo sem ver, quando insiste pra o já adolescente Salvatore sumir dali pra nunca mais voltar, ou seria um escravo eterno como ele foi.</p>
<p>Não parece que o jovem vai ouvi-lo até que Alfredo “trai” o amigo provocando um desencontro com Helena, por quem tem uma enorme paixão não bem correspondida. E a moça, filha de um banqueiro da cidade, vai embora no momento que parecia estar certa do amor que sentia por ele. Desiludido, sem nunca ter sabido dessa “pequena mas enorme traição”, ele parte dali e se torna um famoso diretor de cinema, só retornando a pequena cidade 30 anos depois.</p>
<p>Metalinguagem, um filme dentro do filme, talvez a maior homenagem já feita ao cinema (há outras.. A Noite Americana do F.Truffaut etc).</p>
<p>Do siciliano Giuseppe Tornatore, que soube com rara sensibilidade conduzir essa história de muitas perdas, tendo como pano de fundo o amor em várias das suas formas. Mas o que fez desse filme um ícone dos anos 90, que sensibilizou a quase totalidade das pessoas, certamente não foi a metalinguagem ou a homenagem a 7ª arte, que à maioria pouca importa. Nem a amizade de um velho com uma criança.</p>
<p>O limiar entre o profundo e o piegas, o linear e o fantástico, quando se tem uma criança envolvida, é muito próximo, e é fácil o apelo ao choro, mas pode não sobrar nada no dia seguinte, e não é só a TV que é especialista nisso. Agradar a maioria não é tarefa fácil, <a title="Cinema Paradiso" href="http://www.youtube.com/watch?v=LSLZLkcMrHU" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.youtube.com/watch?v=LSLZLkcMrHU&amp;referer=');">Cinema Paradiso</a> fala de coisas, de uma forma ou de outra, que todos passaram algum dia, fala de amores possíveis e impossíveis, de encontros e desencontros, do inexorável, fala do destino.</p>
<p>Tanto no filme como na vida real, o ator que fez o Totó adolescente se chamava Salvatore. Eu também sou um Salvatore, e assisti meu primeiro filme no porão da Igreja do Bom Conselho na Mooca, aonde a censura igualmente era dos padres, e quando estive em Palácio Adriano, cidade siciliana aonde o cinema foi demolido, fiquei emocionado com a praça, o que restou &#8230; um grande estacionamento. Mas ali soube que demoliram o cenário, cinema é “mies-un-scene”, fantasia, invenção&#8230; o cinema da cidade ficava a uma quadra dali.</p>
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		<title>O filme &#8220;ALICE&#8230;&#8221;</title>
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		<pubDate>Sat, 22 May 2010 18:42:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulovilela</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Tim Burton, o cavaleiro do apocalipse, do mundo torto e sem graça.
Ainda não havia visto nenhum filme deste que há algumas semanas bateu o recorde de visitantes no museu de arte moderna de NY com sua exposição, e que é o atual presidente do juri do Festival de Cannes. Então fui assistir o ALICE, história [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a title="Tim Burton" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Tim_Burton" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Tim_Burton?referer=');">Tim Burton</a>, o cavaleiro do apocalipse, do mundo torto e sem graça.</p>
<p>Ainda não havia visto nenhum filme deste que há algumas semanas bateu o recorde de visitantes no museu de arte moderna de NY com sua exposição, e que é o atual presidente do juri do Festival de Cannes. Então fui assistir o ALICE, história mais que centenária do matemático Lewis Carroll, que faz parte do imaginário de crianças em todos os tempos.</p>
<p>Pensei que fosse ver uma releitura de ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS, que já teve muitas, menos ao pé da letra um livro filmado com os bichinhos criados em 3D, nada além disso. Um filme pra crianças, de final feliz, aonde o Mal perde para o Bem, só menos babaca que os do Disney, porque é Lewis Carroll.</p>
<p>Se é mesmo pra crianças, paro por aqui, é bonitinho e tem uma arquitetura de imagens compatível com as novas tecnologias. Agora, se não é só pra crianças, se esta é a revolução que se diz tão profunda quanto foi do cinema mudo para o falado, ou do P&amp;B para o colorido, e o Tim Burton é o verdadeiro representante desta mudança&#8230; morri, mas diferente de ALICE ainda sinto a pele quando me belisco.</p>
<p>Vão me xingar os milhares de adultos que ajudaram a bater esses recordes de visitação e bilheteria. Gosto de criatividade e imaginação, quase nada que presta é aritmética simples, pode não ter história, pode ser suave, violento, maniqueísta, mas me frustrei com esse ALICE quadradinho, que fazer?</p>
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		<title>O Arquiteto e as Palavras</title>
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		<pubDate>Wed, 05 May 2010 21:37:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulovilela</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Comecei escrever um livro que pudesse ajudar aos que gostam de arquitetura, mostrando detalhes de obras artesanais e também respondendo questões que me foram feitas ao longo dos anos:
“Como se liga tijolo à madeira? Por que se chama cimento queimado? Pintura com pó de tijolo? Pode-se impedir a friagem que vem do chão? O que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Comecei escrever um livro que pudesse ajudar aos que gostam de arquitetura, mostrando detalhes de <a title="Obras do arquiteto Paulo Vilela" href="http://www.paulovilela.com.br/obras-arquitetura-pos-moderna/">obras</a> artesanais e também respondendo questões que me foram feitas ao longo dos anos:</p>
<p>“Como se liga tijolo à madeira? Por que se chama cimento queimado? Pintura com pó de tijolo? Pode-se impedir a friagem que vem do chão? O que faz um arco ou uma abóbada terem tanta resistência? O que é  piso hidráulico? Não há uma maneira mais moderna de se colocar fios e canos sem quebrar as paredes? O que é marchetaria, clerestório etc.”</p>
<p>Depois de umas tantas páginas percebi que tinha uma espécie de manual  prático, desisti. À maioria dos profissionais da área, que  trabalham  com outras técnicas e resultados, seria um trabalho tão original quanto  inútil; aos outros, estes quantos me perguntaram e os que não tiveram   oportunidade, provavelmente nem saberiam da existência deste “manual”</p>
<p>O filho e o neto do fundidor de sinos não quiseram aprender com o pai, o  avô. Um foi ser jornaleiro, o outro jornalista. Não há mais lugar para  sinos, as igrejas são galpões, as aldeias são tribos globais ligadas  pelo éter&#8230; E o tanger dos sinos vai ficando só na memória, subtituídos  pelos ruidosos alto-falantes. Os dedos elegeram os teclados, as mãos esqueceram de acariciar.</p>
<p>“Ei Viola,  pára com isso, não sobe em mim!”, “Sabe quem morreu?”, “O mundo tá se vingando” , “Queria mudar de vida&#8230;” , “Coitada, teve trigêmeos”.</p>
<p>Se alguém se perguntar  &#8220;o que isso tem a ver?&#8221;, mato a curiosidade já: não sei como, nem porquê,  mas isso apareceu por cima do que está atrás.<strong><br />
</strong></p>
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		<title>&#8220;Há dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu&#8221;</title>
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		<pubDate>Tue, 04 May 2010 00:39:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulovilela</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O cara esperava a namorada no carro há mais de uma hora. Ela demorava, não atendia o Cel., ocupada que estava na sua labuta. Já passava das dez da noite, a rua se esvaziava. Os guardas da empresa, ocupados numa discussão sobre futebol, nem perceberam quando dois indivíduos com jaquetas de plástico e armas na [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O cara esperava a namorada no carro há mais de uma hora. Ela demorava, não atendia o Cel., ocupada que estava na sua labuta. Já passava das dez da noite, a rua se esvaziava. Os guardas da empresa, ocupados numa discussão sobre futebol, nem perceberam quando dois indivíduos com jaquetas de plástico e armas na mão passaram por eles.</p>
<p>&#8212; Pula pro banco do lado, seu filho da puta. É um assalto! Põe o cinto, e as <em>mão</em> sobre o painel se não quiser levar um tiro agora.</p>
<p>O cara fez tudo direitinho. Um gatuno pegou a direção; o outro, no banco de trás, com a arma encostada na sua garganta, pediu a grana. O cara não tinha nenhum tostão, nem talão de cheque, e só cartão de crédito.</p>
<p>&#8212; Acho que cê quer mesmo morrer, né seu FdP? Cadê a grana?</p>
<p>Espalharam os documentos, pegaram seu casaco, sua camisa, o relógio, maço de cigarro, celular, mas era pouco. O carro a 150km/h saiu da marginal e pegou a Castelo Branco.</p>
<p>&#8212; E aí cara? Falou o gatuno de trás. &#8212; A gente trabalha com Caixa Eletrônico, tu não tem merda nenhuma, pra que cê vive hein, seu FdP?</p>
<p>O cara bem que tentou, mas não teve conversa, ele não tinha grana, não tinha dólar, nem uns míseros reais.</p>
<p>&#8212; Entra naquela quebrada&#8230; Gritou o de trás. &#8212; Vou mandar esse merda pro espaço, ele tá pedindo pra ver os <em>anjinho </em>de perto.</p>
<p>O motorista, calado, entrou numa ruazinha de terra, que nem bem era uma rua. O carro pulava que nem cabrito. Logo entrou numa outra, e mais uma, tudo escuro, uns casebres mal iluminados aqui e ali.</p>
<p>Vendo que a coisa tava preta, o cara falou com o motorista, o único que podia ouvir qualquer coisa:</p>
<p>&#8212; Se seu amigo aí não fosse tão nervoso, ia propor uma coisa&#8230;</p>
<p>&#8212; Uma coisa? Que coisa..? Disse o que dirigia.</p>
<p>&#8212; Vai ouvir esse cara? Eu vou dar um tec nesse merda agora! Aos berros, falou o desacorsoado do banco traseiro, e armou o gatilho.</p>
<p>&#8212; Cala essa boca, caralho, tô de saco cheio! Gritou o motorista, virando o corpo pra trás, soltando as mãos do volante.</p>
<p>O carro bateu num morrinho, a direção girou, a roda caiu numa valeta de esgoto, e parou. Ele saiu do carro, jogou as chaves longe, pegou o revólver do companheiro&#8230;</p>
<p>&#8212; Tá vendo só o que fez, devia era mandar você ver os <em>anjinho</em>, vamos se mandar, deixa esse otário com essa tranqueira&#8230; E vc aí , dá aqui os<em> sapato</em>!</p>
<p>Dali o carro não saía mesmo, ele recolheu os documentos espalhados e foi tentando no escuro achar o caminho até a Castelo. Era um mês de junho, fazia frio. Sem camisa, sapato, cigarro, devia ser mais de meia-noite, e ele fazendo sinal na estrada. Passou polícia, bombeiro, ambulância, taxi. Ninguém parou.</p>
<p>Pés esfolados, espirrando, primeiro tel. que encontrou não tinha bocal; o segundo não tinha o telefone. Até que num posto achou um que funcionava. O relógio do posto marcava 1:30hs. Ligou à cobrar pra namorada. Já se sentia em casa, de banho tomado, agasalhado.</p>
<p>RING-RING-RING &#8211; Esta é uma ligação a cobrar&#8230;</p>
<p>&#8212; Alô? Oi Marcia, sou eu!</p>
<p>&#8212; Eu quem? Foi embora e não me esperou, e ainda tem coragem de ligar a essa hora? Vai à merda seu descarado FdP !</p>
<p>CLACK &#8211; Té, té, té, té&#8230;.</p>
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		<title>O FILME &#8220;BASTARDOS INGLÓRIOS&#8221;</title>
		<link>http://www.paulovilela.com.br/o-filme-bastardos-inglorios/</link>
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		<pubDate>Tue, 27 Apr 2010 12:20:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulovilela</dc:creator>
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		<description><![CDATA[França ocupada, 2a Guerra Mundial. O filme mostra violência fisica e psicológica, mas antes que a guerra é insana e transforma pessoas.
Diferente dos devaneios do Linch, que nascem de sonhos, os do Tarantino vêm dos milhares de filmes que assistiu, da realidade violenta do mundo hodierno. Ele usa a lógica do absurdo com precisão matemática, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>França ocupada, 2a Guerra Mundial. O filme mostra violência fisica e psicológica, mas antes que a guerra é insana e transforma pessoas.</p>
<p>Diferente dos devaneios do Linch, que nascem de sonhos, os do Tarantino vêm dos milhares de filmes que assistiu, da realidade violenta do mundo hodierno. Ele usa a lógica do absurdo com precisão matemática, quando mistura escalpos dos Sioux, quadrinhos, música romântica, Hitchcook, e reinventa a história.</p>
<p>Instigante nos detalhes, o sagaz investigador alemão (caçador de judeus), com muita inteligência,  sub-repticiamente mostra seu total controle sobre as situações, e sem violência física induz seus entrevistados ao horror da impotência.</p>
<p>Os escalpos praticados pelo grupo de judeus anti-nazista, liderados por um americano rústico, sucedem a diálogos insólitos, e o “caipira americano” só tem uma filosofia: matar sem distinção qualquer soldado alemão que use farda. Quando não mata põe uma marca da suástica, feita à faca, na testa do indivíduo pra que sempre seja reconhecido quando não usar uniforme.</p>
<p>Poderia ser um filme sobre a vingança da jovem judia, que escapou das metralhadoras, e tem a chance de dar o troco em alto estilo, como pode parecer, mas não é. Diferente da vingança de Manon na sequência do Jean de Florete (extraordinário filme sobre a maldade humana), que Manon segue um plano determinado, aqui Tarantino deixa que o destino faça a sua parte.</p>
<p>Mortes em massa só são vistas na tela de um cinema  (quase uma metalinguagem, que dilui o realismo). Quem não se importar com a maquiagem da massa de tomate dos escalpos, ou fechar os olhos se não suportar, vai se impressionar com os diálogos e rir das cenas hilárias. O filme é só uma interpretação da loucura e da insanidade humana.</p>
<p>Fiquei muito surpreso ante os comentários que ouvira anteriormente, pra mim, o melhor filme americano de 2009.</p>
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		<title>PRA QUE TANTAS JANELAS?</title>
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		<pubDate>Sun, 25 Apr 2010 14:11:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulovilela</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[janelas]]></category>

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		<description><![CDATA[Há os que precisam mais, os que precisam menos&#8230; de tudo.
Nenhum é igual na digital, no atrevimento, na covardia, no desentendimento. Alguns desistem logo, outros persistem sempre; há os que dão tudo de si, os que tiram tudo de ti.
Pode-se tentar compreender as diferenças, mas é difícil ir além da morte certa pelo cansaço, pela [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Há os que precisam mais, os que precisam menos&#8230; de tudo.</p>
<p>Nenhum é igual na digital, no atrevimento, na covardia, no desentendimento. Alguns desistem logo, outros persistem sempre; há os que dão tudo de si, os que tiram tudo de ti.</p>
<p>Pode-se tentar compreender as diferenças, mas é difícil ir além da morte certa pelo cansaço, pela doença, ou a que se arrasta lenta pelo desamor, humilhação, e desânimo.</p>
<p>Se pelo insólito a vida já é por um triz, que dirá morrer por grana, por muita, por pouca; por amor de mais, por amor de menos!</p>
<p>Mata-se à toa e morre-se à toa, porque vive-se à toa. Pobres ou ricos, de ouros ou de almas, palco ou platéia, palavras são só metáforas nessa estética da incompreensão.</p>
<p>Meu deus, que não compreeendo&#8230;</p>
<p>Pra que tanta janela, se o ar que entra é o mesmo que sai, impregnado de toda a gente que expira, pelos pulmões, pelo invisível das turbinas das suas invenções?</p>
]]></content:encoded>
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		<title>IDIOSSINCRASIA</title>
		<link>http://www.paulovilela.com.br/idiossincrasia/</link>
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		<pubDate>Tue, 20 Apr 2010 04:58:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulovilela</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[idiossincrasia]]></category>
		<category><![CDATA[musico]]></category>
		<category><![CDATA[poeta]]></category>

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		<description><![CDATA[Não digo que não exista, mas não me recordo de um poeta, músico&#8230; um artista de verdade, que não fosse um atormentado de um jeito ou outro. Flui mais fundo e mais fácil o que vem da paixão ou do desespero.
Alma que sorri sem motivo, ou as que a tristeza tomou conta, ou as sublevadas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não digo que não exista, mas não me recordo de um poeta, músico&#8230; um artista de verdade, que não fosse um atormentado de um jeito ou outro. Flui mais fundo e mais fácil o que vem da paixão ou do desespero.</p>
<p>Alma que sorri sem motivo, ou as que a tristeza tomou conta, ou as <a title="Sublevar" href="http://www.priberam.pt/DLPO/default.aspx?pal=sublevadas" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.priberam.pt/DLPO/default.aspx?pal=sublevadas&amp;referer=');">sublevadas</a> pelo desencanto, encontram na lógica sem lógica sua conexão com o mundo, e produzem tanto lixo quanto por vezes preciosos pensamentos e também verdadeiras obras de arte.</p>
<p>Diferente do amor materno, das peças pregadas pelo destino nos desencontros, das muitas formas de reverência religiosa, ou ainda, das efêmeras paixões que faz sempre do ser humano um idiota feliz, &nbsp;onde encontramos milhares de referências em todas as formas e tempos, raríssimas são as que expressam o amor calmo, <a title="Sempiterno" href="http://www.priberam.pt/DLPO/default.aspx?pal=sempiterno" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.priberam.pt/DLPO/default.aspx?pal=sempiterno&amp;referer=');">sempiterno</a> e que não aprisiona pelo medo.</p>
<p>Porque alma apaziguada não se expõe, passa&#8230; não impede a água no seu curso, o sono, o acordar disposto, não desconcentra, transmite o calor do equilíbrio, e é imaterial e invisível de verdade. Como poderia um, cuja alma não pesa, não faz sombra, não puxa nem empurra, se comunicar com gerações que nem em sonho saberá?</p>
<p>Felizes os que têm paz de espírito, é o que desejamos a todos os entes queridos, mas sem a paúra, a dor, o conflito,&nbsp; há que ser além do humano pra gerar um encantamento imanente.</p>
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		<title>Uma História de Arrepiar</title>
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		<pubDate>Thu, 25 Mar 2010 15:58:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulovilela</dc:creator>
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		<description><![CDATA[“Minha família nunca vai poder ter um café, esses novos russos conseguem qualquer coisa, eles têm contatos com os antigos dirigentes do partido, compram qualquer um”.  Dizia a professora de história, falando em espanhol, me contando o que ocorria naquele momento na Federação Russa. Ela falava dos executivos que andam com maletas e celulares, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>“Minha família nunca vai poder ter um café, esses novos russos conseguem qualquer coisa, eles têm contatos com os antigos dirigentes do partido, compram qualquer um”.  Dizia a professora de história, falando em espanhol, me contando o que ocorria naquele momento na Federação Russa. Ela falava dos executivos que andam com maletas e celulares, com uma certa mágoa dos caminhos tortos que enveredava a mudança brusca do regime.  Dizia  também que adorava italiano, mas não tinha tempo, nem dinheiro para aprender.  “Por que não assiste a RAI?” Perguntei-lhe. “Gostaria, bem que gostaria&#8230; se morasse num apartamento com sacada&#8230;” Fiquei imaginando a relação de satélite com sacada e insisti, dizendo que não entendia o que uma coisa tinha a ver com a outra. “Logo se vê que não é daqui” Falou de pronto, explicando que a antena de TV,  na cobertura do prédio, é só pôr pra desaparecer no mesmo dia. “Eles roubam tudo” Completou lacônica.  “Eles, quem?” Insisti.  “Os russos, meus vizinhos, qualquer um, é só subir no teto, cortar os fios e pronto, lá se foi a antena. Não temos porteiros, zelador, chaves&#8230;” Desabafou, meio constrangida.</p>
<p>Naquele momento no Parlamento russo discutia-se as leis de propriedade privada ao mesmo tempo que o Estado vendia os apartamentos funcionais aos usuários. Ainda não havia uma polícia civil, nem advogados ou juizes, menos ainda Cartórios. Empresas particulares surgiam rápido e até a emblemática fábrica de vodka fora privatizada.</p>
<p>O mundo dito civilizado desabou sobre a Rússia de uma só vez. Percebi isso muito claramente quando vi, na esquina da <a title="Praça Vermelha" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Pra%C3%A7a_Vermelha" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Pra_C3_A7a_Vermelha?referer=');">Praça Vermelha</a>, diante de uma loja de roupas &#8212; cuja vitrine inteira fora montada sobre uma foto expandida de N.York, com a estátua da liberdade e tudo &#8211;, um soldado sem as pernas, numa cadeira de rodas, com uma bandeira americana no ombro, pedindo esmolas.</p>
<p>Caminhávamos pelas ruas centrais até a Estação <a title="Kiev" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Kiev" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Kiev?referer=');">Kiev</a>. Nunca vira escadas rolantes tão largas e longas. Tudo aquilo fora construído para servir de abrigo de ataques aéreos. “Cabe toda a população de Moscou nas estações e túneis, mas isso foi antes da bomba atômica” Disse a professora. Descemos aqueles monstros de aço e aguardamos o trem. <a title="Absorto" href="http://www.dicionarioweb.com.br/absorto.html" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.dicionarioweb.com.br/absorto.html?referer=');">Absorto</a> com os lustres de cristal de rocha e a colheita do trigo nos mosaicos do teto da estação, veio-me uma estranha imagem, como um filme em PeB:</p>
<p><em>Um menino camponês, um daqueles paupérrimos quando os tzares desapareceram,  que assistiu à uma revolução de princípios e esperou vinte anos por uma habitação razoável, uma comida razoável, uma educação e medicina decentes, que passou por uma experiência única na história do mundo, mas que mais tarde perdeu um filho nas mãos de uma polícia que cumpria ordens que ele não entendia; o menino virou homem, projetou armas  na 2ª G.guerra,  lutou sem saber bem contra o quê, e viu jovens estraçalhados por bombas que nunca pensou existir, mas sobreviveu e voltou como herói, sonhando com um mundo justo e uma vida possível. E o que viu foi uma União Soviética entrando na guerra fria, construindo usinas e bombas atômicas;  pela TV o Sputinik, a Laica e o Yuri,  depois o Valèry  batendo todos os recordes mundiais, depois Chernnobil vazando e a vida possível se esvaindo. Se existisse um assim, aonde andaria este, nesta terra de sonhos vãos, de noites brancas tão frias e tristes? </em></p>
<p>Enquanto os norte-americanos tiveram a América e a Ásia para financiar seus projetos mirabolantes, os russos só tiveram a si mesmos e o que a eles caberia no esforço de tantos anos viram queimar no combustível dos foguetes, na fabricação de armamentos. Poderia ter sido diferente? Talvez sim, talvez não, mas o socialismo soviético estagnado abriu espaço para uma escória sem precedentes.</p>
<p>Cinquenta anos se passaram entre o fim da segunda guerra e aquele momento em que olhava a colheita do trigo no teto da estação <a title="Kiev" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Kiev" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Kiev?referer=');">Kiev</a>, nos exatos dois minutos até o trem chegar.</p>
<p>Eram poucas estações até a casa do avô da professora. Subimos as escadas rolantes, caminhamos duas quadras ao lado de um jardim coberto por folhas secas e entramos num prédio cinza e mal-conservado de um grande conjunto habitacional. O velho morava no décimo quarto andar, o elevador defeituoso só foi até o oitavo, o resto subimos pelas escadas.</p>
<p>Ela tocou a campainha várias vezes até atender  um homem pálido, de olhos claros, tão enrugado como jamais vira. Tinha noventa e dois anos, era diabético, meio surdo, coxo,  ranzinza e só falava russo. Olhou-me  como se fosse um E.T. e fechou a porta rispidamente.  Ela disse ao avô que eu era do Brasil, que estava só de passagem visitando a Rússia, ao que o velho não deu a mínima, interessado que estava na sopa que a neta lhe trazia. Não ficamos nem dez minutos, mas a mim pareceu uma eternidade.</p>
<p>Quando retornávamos de metrô ao centro passamos por uma grande ponte metálica. Apontando com o dedo ela disse que <em>aquela</em> tinha o nome do seu avô, homenagem do exército russo ao engenheiro que a projetou.  Levei um susto, fiz a contas, o velho teria quinze anos quando Nicolai morreu. Não, não podia ser possível&#8230;  Muito encabulado, perguntei-lhe:  &#8220;Você perdeu algum irmão?&#8221;  Ela me olhou de soslaio&#8230; “ Por que?”  Na hora o trem apitou, era a estação <a title="Kiev" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Kiev" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Kiev?referer=');">Kiev</a> novamente. &#8220;Estou atrasada, preciso ir ao dentista, amanhã nos encontramos ao meio dia aqui mesmo” . E saiu correndo assim que as portas do trem se abriram.</p>
<p>No dia seguinte ela não apareceu, nem no outro. Fui durante uma semana naquele local no mesmo horário, não sabia seu nome e nunca mais a vi. Então tomei o metrô e fui até aquele prédio cinza do seu avô. Todo o quarteirão estava cercado, os edifícios foram cobertos por tapumes,  parecia uma grande obra pública e a impressão que ali não morava ninguém há muito tempo.</p>
<p><strong>Moscou &#8211; Novembro, 1994</strong></p>
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		<title>MNEMÔNICO</title>
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		<pubDate>Tue, 23 Mar 2010 00:16:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulovilela</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Todo ano era assim, mas antes que me dissessem que era o começo de alzheimer, inventei um jeito simples de lembrar do aniversário da minha tia. Aliás nem sei porque não pensei isso antes&#8230; era só associar a algo que lembramos sempre, facílimo! Todo mundo que esquece as coisas devia fazer isso.
Nº 10 da R. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Todo ano era assim, mas antes que me dissessem que era o começo de <a title="alzheimer" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Mal_de_Alzheimer" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Mal_de_Alzheimer?referer=');">alzheimer</a>, inventei um jeito simples de lembrar do aniversário da minha tia. Aliás nem sei porque não pensei isso antes&#8230; era só associar a algo que lembramos sempre, facílimo! Todo mundo que esquece as coisas devia fazer isso.</p>
<p>Nº 10 da R. Joana D´Arc, bem atrás da Igreja do Bom Conselho (sic), ficava a casa da malévola e estouvada valquíria, viúva de eterno negro, e arauto de fé apocalíptica, também diretora do famigerado pasquim do bairro, e progenitora da Ana, Luana e Joana,  aonde ia nas noites sem lua, levado pela insensatez, embriaguês, ou algum planejamento divino, o padre da paróquia. A rua não tinha luz, e nada que se movia fazia sombra, mas meninos têm olhos de gato, e a infância não apaga nada. </p>
<p>Então,  do 10 da rua subtraí as 3 filhas da viúva e tive o exato dia do aniversário da titia. O mês nunca tive problemas, depois de agosto, mês de ventania e <a title="hidrofobia" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Hidrofobia" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Hidrofobia?referer=');">hidrofobia</a>, vem sempre a primavera. E com lua ou sem lua, minha memória nunca mais falhou. Todo 7 de setembro, enquanto ela viveu, ouviu cedinho a minha voz ao telefone: “tanti auguri, zia!”</p>
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		<title>VERGONHA</title>
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		<pubDate>Thu, 11 Feb 2010 01:00:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulovilela</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O filme holandês premiado com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro – CARÁTER, e  O HOMEM MAU DORME BEM, de Akira kurosawa, têm roteiros muito distintos, mas sub-repticiamente têm algo em comum, ambos falam sobre o conviver com culpas e não-culpas. O primeiro fala de um homem que tenta reconquistar uma mulher que é “caráter [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O filme holandês premiado com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro – CARÁTER, e  <a title="Homem mau dorme bem" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Homem_Mau_Dorme_bem" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Homem_Mau_Dorme_bem?referer=');">O HOMEM MAU DORME BEM</a>, de <a title="Akira Kurosawa" href="http://www.uesb.br/janela/diretores_ver.asp?cod=10" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.uesb.br/janela/diretores_ver.asp?cod=10&amp;referer=');">Akira kurosawa</a>, têm roteiros muito distintos, mas sub-repticiamente têm algo em comum, ambos falam sobre o conviver com culpas e não-culpas. O primeiro fala de um homem que tenta reconquistar uma mulher que é “caráter antes de tudo&#8221;, e que não o perdôa; o segundo, mostra um homem que troca de identidade com um amigo pra se aproximar do assassino do pai, homem sem escrúpulos, e fazer justiça com as próprias mãos.</p>
<p><span style="text-decoration: underline;"><a title="Erasmo de Roterda" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Erasmo_de_Roterd%C3%A3o" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Erasmo_de_Roterd_C3_A3o?referer=');">Erasmo de Roterdã</a> no seu Elogio À Loucura</span>, diz que dores de amores cada qual sente à sua maneira, um pode não perdoar, outro nem ligar, outro ainda chegar ao extremo de matar os envolvidos e a si mesmo, porque isso varia com a formação do indivíduo, tipo de sociedade etc., mas uma pedrada na cabeça dói igual a qualquer um, e a dor de uma pedrada não gera culpas no atingido.</p>
<p>Não deve haver mesmo nesse mundo alguém sem defeitos, mas há coisas que não se perdoa em nenhuma sociedade, coisas que não dependem da estrutura social, como matar sem motivo, roubar de quem nada tem, humilhar pessoas seja pelo aspecto cultural ou econômico, maltratar animais indefesos, lesar a pátria com negócios escusos pra benefício próprio, se passar por outra pessoa pra ter o reconhecimento que não pode ter.</p>
<p>O indivíduo armado vai roubar&#8230; e rouba, depois, sem nenhuma adversidade, olha pro cara e dá um “tec”. O que se pode pensar sobre a personalidade de um tipo assim? Ou de um que rouba o tênis sem marca e o dinheiro da condução de um operário na estação do trem às 6hs da manhã? Ou do motorista que desvia da sua faixa na direção de um quatro-patas para atropelá-lo?</p>
<p><a title="Discurso Sobre a Origem e os Fundamentos Desigualdade entre os Homens" href="http://www.submarino.com.br/produto/1/21474151/discurso+sobre+a+origem+e+os+fundamentos+desigualdade+entre+os+homens" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.submarino.com.br/produto/1/21474151/discurso+sobre+a+origem+e+os+fundamentos+desigualdade+entre+os+homens?referer=');">J.J.Rosseau no Discurso Sobre a Origem da Desigualdade Entre os Homens</a> diz que o homem nasce bom, e a sociedade o perverte. É uma idéia, mas se é fato que nas sociedades mais pobres e menos justas essas pessoas proliferam como moscas, e a sociedade tem grande responsabilidade por essas crias deformadas, nas comunidades mais desenvolvidas esses criminosos “sem culpas”  também existem, e caímos num abismo se pensarmos que o homem já nasce mau,  porque  então vivemos num zoológico sem jaulas.</p>
<p>Agora, diferentemente desses monstros “sem culpas”, há os polidos e bem-vestidos, que lesam a pátria com suas “negociatas”, emprobrecendo todos os demais, e os que mentem descaradamente dizendo ao mundo que fizeram coisas que não fizeram nem têm condições de fazer, apropriando-se de direito autoral, e recebendo os louros que não lhes pertence. <span style="text-decoration: underline;">Ambos, quando não são psicopatas </span>(normalmente são), têm remorsos mais cedo ou mais tarde e até mudam o rumo de sua vidas, está cheio de exemplos conhecidos, mas nunca devolvem o que se apropriaram, nem dinheiros, nem a identidade roubada. Podem enganar suas mulheres, seus filhos, meia dúzia de amigos, vizinhos, e até um povo inteiro, por certo tempo, mas não a si mesmos.</p>
<p>Claro que se forem psicopatas vão dormir em paz até o último dia de suas vidas,  sortudos que são,  eximidos de culpas, se o destino não lhes reservar algo trágico dos lesados.</p>
<p>Não pude evitar de colocar os ladrões de direitos autorais entre os “imperdoáveis”, porque projetei e fiz obras que os proprietários usaram o meu conhecimento, talvez a minha arte, a minha dedicação, mentindo a todos os seus conhecidos como autores das suas fantasias. E penso nos milhares de cigarros que fumei, nas noites que fiquei acordado pra lhes dar o melhor de mim, no tempo todo que não soube; depois, no tempo que fiquei calado, porque a vida é pra frente. Talvez seja o mal de ser democrático, mas imaginava se tratar de casos  isolados, até que esta semana soube de mais um arquiteto de mentirinha. Pobre mundo doente!</p>
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		<title>Nós vivemos numa Democracia?</title>
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		<pubDate>Wed, 03 Feb 2010 22:18:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulovilela</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O governo do povo, pelo povo, para o povo (Abraham Lincoln). Meu pai gostava tanto desse homem, que na cabeceira da cama em vez de um retrato de família ou de minha mãe, tinha um “bico de pena” do distinto.
Então, obviamente, ouvi histórias e mais histórias desse senhor e da Mary Todd, sua mulher. Não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O governo do povo, pelo povo, para o povo <a title="Abraham Lincoln" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Abraham_Lincoln" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Abraham_Lincoln?referer=');">(Abraham Lincoln).</a> Meu pai gostava tanto desse homem, que na cabeceira da cama em vez de um retrato de família ou de minha mãe, tinha um “bico de pena” do distinto.</p>
<p>Então, obviamente, ouvi histórias e mais histórias desse senhor e da <a title="Mary Todd Lincoln" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Mary_Todd_Lincoln" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Mary_Todd_Lincoln?referer=');">Mary Todd</a>, sua mulher. Não sei aonde ele lia, se inventava, muitas delas nunca pude confirmar. O que importa é que ele falava sobre  democracia (palavra que veio do grego <strong><em>demos</em></strong>, que significa povo).</p>
<p>Este sistema político que é praticado pela maioria das nações, que tem o povo soberano sobre o poder legislativo e o executivo, que é mais ou menos o mesmo que dizer, que o povo é<strong> </strong>o “rei”, e o Estado o “súdito”, não o oposto.</p>
<p>Os princípios e as práticas que regem o sistema democrático, entre tantos preceitos, visam a liberdade do homem. Obviamente esse é um caminhar longo de aprendizagem, de tolerância, com tropeços, idas e vindas. Alguns povos estão mais próximos, outros nem tanto, mas entre democracia e a autocracia, que é o oposto, há muitas variantes, algumas que fazem parecer que um é o outro e vice-versa.</p>
<p><a title="Mahatma Gandhi" href="Mahatma Gandhi" target="_blank">Ghandi </a>disse que a intolerância é uma violência que afasta o homem da compreensão do espírito democrático, mas ele não disse que a corrupção generalizada do legislativo e do executivo leva o homem ao desinteresse em vez da participação. No seu tempo este não era o maior problema, mas se o “rei” não participa verdadeiramente das decisões, os “súditos” tomam conta de tudo e fazem o que querem.</p>
<p>Enquanto o voto for obrigatório, tivermos Senado (essa bobagem que nos custa muito, inventada lá nos states por motivos nada louváveis), e pior ainda, quando um senador que representa 8 milhões de eleitores  tem o mesmo peso de decisão daquele que representa só alguns milhares. Ou ainda, o deputado da União que representa uma multidão sem rosto, que também não tem acesso a ele,  nem sabe aonde mora&#8230;</p>
<p>Não, não sei bem o que temos,  mas por hora, ao menos, democracia não é.</p>
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		<title>Quando o Homem vira Formiga&#8230;</title>
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		<pubDate>Sat, 16 Jan 2010 04:58:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulovilela</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Penso haver uma ordem universal que é mais forte que todas as correntes do pensamento, crenças ou fé &#8211; o equilíbrio. Não falo de forças estáticas, mas de resultantes ativas em equilíbrio dinâmico: as &#8220;gravidades&#8221; que em combinação com a velocidade mantêm os corpos celestes nas suas órbitas; a compensação das águas na Terra; a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Penso haver uma ordem universal que é mais forte que todas as correntes do pensamento, crenças ou fé &#8211; o equilíbrio. Não falo de forças estáticas, mas de resultantes ativas em equilíbrio dinâmico: as &#8220;gravidades&#8221; que em combinação com a velocidade mantêm os corpos celestes nas suas órbitas; a compensação das águas na Terra; a pressão externa e interna no corpo humano; o sal e potássio no sangue, equilíbrios que quando rompidos são a catástrofe, a miséria, a doença.</p>
<p>Não há julgamento de valor nessa &#8220;justiça universal&#8221;. Fealdade e beleza, compreensão e desentendimento, bondade ou maldade, riqueza e pobreza, ignorância e sabedoria, são antagônicos estéticos e morais, peças só do quebra-cabeça humano.</p>
<p>Obviamente a Justiça dos homens, que tem base em valores morais, e sua manutenção &#8220;policial&#8221; que foi criada pra salvaguardar a ordem dos que têm algo à perder,  nada tem a ver com essa ordem universal do equilíbrio, cuja base desconhecemos totalmente, e onde tudo é  aleatório. Não há pobreza ou riqueza, bondade ou maldade no universo.</p>
<p>Parece absurdo imaginar que se existisse um &#8220;criador sensível nos moldes humanos&#8221;, este provocaria um terremoto no mais miserável país do ocidente. E foi curioso o <a title="TERREMOTO NO HAITI Cônsul haitiano afirma que _o africano em si tem maldição" href="http://www.youtube.com/watch?v=9UprgJGm-64&amp;feature=related" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.youtube.com/watch?v=9UprgJGm-64_amp_feature=related&amp;referer=');">Cônsul do Haiti</a> em SP, que depois se arrependeu, culpar os negros africanos com suas crenças pela catástrofe, como se Vudu tivesse tanto poder.  Se o epicentro do terremoto fosse em Brasília muitos diriam que era castigo de deus por concentrar tanta corrupção (que em si não é uma blasfêmia ).</p>
<p>Vamos pensar que quando caminhamos, pisamos e matamos formigas sem perceber, e que esta semana um gigante saiu das entranhas da Terra e caminhando em Porto Príncipe sequer olhou aonde pisava.</p>
<p>Diante das grandes tragédias, fora das forças que controlamos, o homem é só uma formiguinha perdida e sem nome.</p>
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		<title>De onde viemos, Pra que viemos, Pra onde vamos?</title>
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		<pubDate>Mon, 21 Dec 2009 07:09:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulovilela</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Chamamos de fé o crer incondicional sem nenhuma base em  argumentação racional. E se assim é, fé não se discute; se não se discute não há forma de convencimento universal sobre a existência de entidades supremas do bem ou do mal.
Não são dotados de maiores virtudes aqueles que por terem fé trilham o caminho das [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Chamamos de fé o crer incondicional sem nenhuma base em  argumentação racional. E se assim é, fé não se discute; se não se discute não há forma de convencimento universal sobre a existência de entidades supremas do bem ou do mal.</p>
<p>Não são dotados de maiores virtudes aqueles que por terem fé trilham o caminho das suas verdades. O que lhes pode conferir tal dignidade é a<a title="lisura" href="http://www.dicionarioinformal.com.br/definicao.php?palavra=lisura&amp;id=1173" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.dicionarioinformal.com.br/definicao.php?palavra=lisura_amp_id=1173&amp;referer=');"> lisura</a>, o caráter <a title="ilibado" href="http://www.dicionarioweb.com.br/ilibado.html" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.dicionarioweb.com.br/ilibado.html?referer=');">ilibado</a>. Da mesma forma se enquadram os que não crêem em anjos e demônios.</p>
<p>As atitudes do dia-a-dia, a maneira como se vê e se trata o outro ante a noção mínima do conceito de justiça com base na observacão da natureza e não das leis humanas, é que o que faz a diferença &#8212; que afasta ou aproxima o homem de deus, se ele existir.</p>
<p>E se ele existir, dotado de forma e inteligência que nem sonhamos, ainda que abstraia toda racionalidade, ainda assim penso que o seu pensar é que nossas vidinhas não têm nenhuma importância no universo.</p>
<p>A arte, o trabalho, a luta maior ou menor de uns ou outros pela sobrevivência, ameniza mas não cura essa chaga que nasce do medo do que se desconhece, da imprevisibilidade da doença e da certeza da morte, que encurrala o homem pra sua fé ou pra sua dúvida.</p>
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