Ela é má…
- 22/01/2012
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A menina escreve no seu diário… Minha irmã é má!
Por muito tempo, além disso, nada mais havia nesse diário. Linhas vieram com tempo, e antes de cada palavra sempre uma reflexão, uma indagação… Começou assim:
“Você tem certeza?” — Sim ela me bate.
“Deve ter um motivo…” — Não, não tem, ela gosta de me bater porque é má!
“Ninguém é mau assim à toa…” -– Ela é, outro dia quando limpava a sala me fez ficar horas sentada no sofá, nem podia me mexer.
“Por que fez isso?” — Pra eu não sujar enquanto varria.
“Mas isso não é bem uma maldade…” — Eu estava apertada e ela não deixava eu sair. Quando ela foi até a cozinha eu corri pro banheiro. Por causa disso me pendurou de costas pela camiseta no registro de água, e lá me deixou por um bom tempo.
“Não fez nada?” — Claro, gritei… Ela ficou furiosa e disse que se avisasse minha mãe me mataria. Também ela rouba minhas coisas e esconde. Ela é má.
“E sua mãe não faz nada?” — Ela não sabe, não posso contar ou apanho.
“Você não está exagerando um pouco?” — Não, ela é mesmo má, me trancou no banheiro e me fez tomar uma garrafa de cerveja porque disse que estava com sede. Quando viu que fiquei bêbada e desmaiei, e minha mãe estava chegando da feira, me carregou até a cama, me cobriu, e me fez prometer que dormia.
“Não creio…” — Mas desta vez minha mãe descobriu, porque vomitei, cheirava a cerveja. Desta vez ela apanhou.
“Não estou mesmo gostando das atitudes dela, alguma coisa você tem que fazer…” — Isso já faz tempo, mas nós crescemos, só que ela continua pegando minhas coisas. Tinha um brinquedo que eu adorava, ela veio com uma caixa de fósforos e quis trocar.
“Uma caixa de fósforos por um brinquedo?” — Sim, recusei.
“Ainda bem, tomou uma atitude..” — Mais ou menos porque ela insistiu que aqueles eram os únicos fósforos do mundo que tinham cabeças cor-de-rosa. É pegar ou largar. Disse.
“Não aceitou, não?” — Aceitei, ela tem um jeito que me assusta. Foi sempre assim, mas nós crescemos mais um pouco e nada mudou.
“Como nada mudou? Tudo muda…” — Não, ela não muda. Ela é má. No seu primeiro emprego me convidou pra ir com ela fazer o exame médico.
“Ora, isso é uma mudança…” — Quem me dera fosse, fiquei superfeliz, eu gostava dela, me arrumei toda e fui. Fiquei numa cadeira olhando uma revista quando a chamaram pelo nome.
“Ficou ali sentadinha esperando, não?” — Não, na hora ela disse que era pra eu ir, que tinham me chamado. Eu falei que chamaram ela, eu ouvi.
“Como assim, não era ela que foi fazer o tal exame?” — Era, mas ela me chamou de tonta, disse que eu não prestava atenção em nada, que tinham chamado a acompanhante…
“A acompanhante?…” — É, e eu boba fui. A moça de uniforme e sapato brancos não me perguntou nada, só pediu o braço e tirou meu sangue. Eu sabia que estava errado, que ela só me convidou pra isso. Ela é má. Mas crescemos mais um pouco e um dia isso terminou.
“Ela mudou?” — Eu já trabalhava e comprei umas tiaras lindas, caríssimas, sempre adorei essas coisas. Dias depois sumiram. Não tinha mostrado à minha mãe com medo de levar bronca. Procurei por toda parte, perguntei a ela se não as tinha visto. Nada, sumiram mesmo.
“Mas não deve ter sido ela ou nunca poderia usá-las, não?” — Foi o que pensei. Mas não estava passando bem no trabalho e meu chefe me mandou pra casa. Cheguei na hora que ela almoçava com minha mãe, e com a tiara no cabelo. Não acreditei, gritei com ódio pra me devolver.
“Devolveu?” — Que nada, se fez de desentendida. Levantou, passou a mão nos cabelos e disse cheia de trejeitos… Imagina se é sua..? E riu debochadamente.
“E sua mãe?” — Coitada, não sabia nada disso de tiaras, só olhou pra nós duas sem entender. Nessa hora enlouqueci, ela estava de costas, peguei-a pelos cabelos e num só golpe a derrubei. Bati sua cabeça contra o assoalho várias vezes até ela começar a chorar, e só parei quando me devolveu. Quero as outras, gritei furiosa, e ainda dei um chute no seu traseiro quando se levantava.
Ela se afastou arrasada e choramingosa e minha mãe pôs uns panos quentes na questão. Nunca mais fez nada comigo e depois desse dia também pouco nos falamos. Tudo doeu muito. Isso faz mais de trinta anos.
6 Comentários em “Ela é má…”
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ah,Paulo,é tao veridica esta historia que me fez voltar no tempo. Passsei exatamente porissso. Lia atonita, pq a historia é minha. Exatamente igual. Parabéns. Acho que vc deve ter assistido isso em algum sonho d tua vida.
Finalmente, a menina cresceu e conseguiu forças para reagir às maldades da irmã! Acerto de contas…
ótimo, muito bom, muito real, não se pode negar que o ser humano tem dentro de si a maldade. Não é um ou outro… prefiro os declaradamente cruéis que os sacanas que se camuflam…
Parabéns.
Parece uma historia verdadeira
Tão real o conto que parece que vi isso em algum lugar..
Ma-ra-vi-lho-so! Uh!
obrigado a vocês que escrevem…