“Há dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu”

O cara esperava a namorada no carro há mais de uma hora. Ela demorava, não atendia o Cel., ocupada que estava na sua labuta. Já passava das dez da noite, a rua se esvaziava. Os guardas da empresa, ocupados numa discussão sobre futebol, nem perceberam quando dois indivíduos com jaquetas de plástico e armas na mão passaram por eles.

— Pula pro banco do lado, seu filho da puta. É um assalto! Põe o cinto, e as mão sobre o painel se não quiser levar um tiro agora.

O cara fez tudo direitinho. Um gatuno pegou a direção; o outro, no banco de trás, com a arma encostada na sua garganta, pediu a grana. O cara não tinha nenhum tostão, nem talão de cheque, e só cartão de crédito.

— Acho que cê quer mesmo morrer, né seu FdP? Cadê a grana?

Espalharam os documentos, pegaram seu casaco, sua camisa, o relógio, maço de cigarro, celular, mas era pouco. O carro a 150km/h saiu da marginal e pegou a Castelo Branco.

— E aí cara? Falou o gatuno de trás. — A gente trabalha com Caixa Eletrônico, tu não tem merda nenhuma, pra que cê vive hein, seu FdP?

O cara bem que tentou, mas não teve conversa, ele não tinha grana, não tinha dólar, nem uns míseros reais.

— Entra naquela quebrada… Gritou o de trás. — Vou mandar esse merda pro espaço, ele tá pedindo pra ver os anjinho de perto.

O motorista, calado, entrou numa ruazinha de terra, que nem bem era uma rua. O carro pulava que nem cabrito. Logo entrou numa outra, e mais uma, tudo escuro, uns casebres mal iluminados aqui e ali.

Vendo que a coisa tava preta, o cara falou com o motorista, o único que podia ouvir qualquer coisa:

— Se seu amigo aí não fosse tão nervoso, ia propor uma coisa…

— Uma coisa? Que coisa..? Disse o que dirigia.

— Vai ouvir esse cara? Eu vou dar um tec nesse merda agora! Aos berros, falou o desacorsoado do banco traseiro, e armou o gatilho.

— Cala essa boca, caralho, tô de saco cheio! Gritou o motorista, virando o corpo pra trás, soltando as mãos do volante.

O carro bateu num morrinho, a direção girou, a roda caiu numa valeta de esgoto, e parou. Ele saiu do carro, jogou as chaves longe, pegou o revólver do companheiro…

— Tá vendo só o que fez, devia era mandar você ver os anjinho, vamos se mandar, deixa esse otário com essa tranqueira… E vc aí , dá aqui os sapato!

Dali o carro não saía mesmo, ele recolheu os documentos espalhados e foi tentando no escuro achar o caminho até a Castelo. Era um mês de junho, fazia frio. Sem camisa, sapato, cigarro, devia ser mais de meia-noite, e ele fazendo sinal na estrada. Passou polícia, bombeiro, ambulância, taxi. Ninguém parou.

Pés esfolados, espirrando, primeiro tel. que encontrou não tinha bocal; o segundo não tinha o telefone. Até que num posto achou um que funcionava. O relógio do posto marcava 1:30hs. Ligou à cobrar pra namorada. Já se sentia em casa, de banho tomado, agasalhado.

RING-RING-RING – Esta é uma ligação a cobrar…

— Alô? Oi Marcia, sou eu!

— Eu quem? Foi embora e não me esperou, e ainda tem coragem de ligar a essa hora? Vai à merda seu descarado FdP !

CLACK – Té, té, té, té….

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