O Futuro Presidente do Brasil

Não digo que seja exatamente esse, mas será alguém muito parecido, infelizmente. Não tenho uma bola de cristal, não ouvi nenhum chamado divino, mas também não tenho mais idade pra ser do tipo “me engana que eu gosto”.

Fila do supermercado, na minha frente uma senhora de mais de oitenta com uma caixinha de sorvete na mão.

— É pro meu neto, ele tá vindo agora, nem me avisou. Moro aqui do lado, tenho nada em casa pra dar pra ele…

Não perguntei nada, obviamente, ela falava porque tava ansiosa.

Na frente dela o futuro presidente do país. Rapaz de vinte e poucos, um agasalho estampado com o “logo” de uma faculdade de economia, com um carrinho lotado de cervejas, saquinhos aluminizados de fritas e uma infinidade de coisas que não prestei atenção.

Enquanto ele punha as coisas sobre o balcão rolante, e a “caixa” lhe perguntava se tinha cartão do supermercado, a anciã se dirige a ele pedindo gentilmente se  pode passar antes com o sorvete. Mas o que ela viu  foi ele do alto da sua soberba fazendo um gesto com o braço esticado, apontando pra algum lugar. E o que ouviu, que também ouvi, foi muito preciso e conciso:

— Deve ter algum caixa vazio…

Nisso tocou o celular da Sra…

— Já chegou? Me espera aí na portaria, tô no supermercado, já estou saindo…

O supermercado estava lotado, ela não saiu do lugar. E a mocinha do caixa foi passando os produtos. No final o rapaz lhe deu um Cartão de Crédito.

— Crédito ou débito? Perguntou a mocinha

— Débito!

— Pode me dar o RG?

— Mas esse cartão não é do senhor. Disse ela.

— É da minha mãe, sempre compro com ele….

— Sinto muito, não posso aceitar…  Devolvendo o cartão e o RG.

— Quero falar com o gerente. Falou, furioso, o futuro presidente do Brasil.

Enquanto se aguardava o gerente, toca novamente o Celular da senhora…

— Já tô indo, filho… O caixa entalou, tô levando um sorvete de chocolate…

Chegou o gerente. Bate-boca inútil, o tempo passando… O rapaz enfurecido passa o braço na esteira, derruba metade das coisas no chão e sai praguejando. Estupefatos, ficam conversando, a “caixa” e o gerente.

Não aguentei ficar calado,  já estávamos há uns 10 minutos aguardando uma solução. Pedi pra passar o sorvete da senhora. Agachados, recolhendo as coisas do chão, nem me ouviram. Agora era a “gerente dos caixas”  que aguardávamos pra cancelar a compra.

A velhinha começou a respirar esquisito e tirou da bolsa um spray de asmáticos, borrifou a garganta, largou o sorvete do neto no balcão, e sem dizer nenhuma palavra saiu cambaleante de mãos vazias.

Eu ouvi sua voz sem voz,  e fiz o mesmo.

6 Comentários em “O Futuro Presidente do Brasil”

  • Maria de Lourdes comentou no dia 14/12/2009

    Ola Paulo!

    Demorei mas estou te escrevendo para deixar aqui minha admiração pela clareza e sensibilidade com que voce escreve.
    Adoro cronicas com estilo próprio, e a maneira com que voce descreve os fatos cotidianos é muito interessante. Continue com essa inspiração, pois, assim voce consegue acordar as pessoas para enchergarem aquilo que esta na frente delas e muitas vezes elas não veem.

    Um grande abraço daqui da Alemanha, Maria de Lourdes

  • Renata comentou no dia 15/12/2009

    Infelizmente esta é uma cena comum nas ruas, lojas, escolas, hospitais. A maioria das pessoas não fica indignada nem manifesta sua desaprovação, o que só contribui para esses mal-educados agirem com tanta despreocupação e petulância. E tudo começa com a falta de educação em casa. Em resumo, somos todos culpados.

  • beatriz hanna comentou no dia 20/04/2010

    eu canso de ver situacoes como essa…falta educacao, gentilezas, generosidade e
    sobra paiencia e resignacao….perdemos nossa capacidade de reagir…

  • Marcello Vitorino comentou no dia 26/05/2010

    Muito bom, Paulo! Você consegue nos transmitir o sentimento de indignação frente a uma cena como essa, sem perder a poesia. Tô gostando de ler teus textos…

  • paulo vilela comentou no dia 26/05/2010

    Que graça teria ver um grosso a mais se não houvesse uma ponte entre o absurdo e o sensível, né não? Legal que me escreveu e gostou.

  • paula lobao comentou no dia 15/06/2010

    Foi pragmatico! Se tivermos sorte ainda, porque nao se esqueça…poderá vir mais algum só com o supletivo. Educação que eu saiba, vem de familia. Tambem nao exite nenhuma faculdade que ensine o sujeito a nao ser mentiroso ou ser honesto. O Brasil carece de pessoas de bem, com integridade, respeito, pricipalmente ao seu semelhante.
    O jovens estao sem nenhum conceito de familia, respeito, onde termina o dele e começa o do outro. Os meios de comunicação exibem programas que envergonham qualquer um. Antigamente um olhar valia mais que um tapa ou um castigo. Respeitávamos isso e muito mais.
    Criança nao tinha voto na matéria.Calava-se e nao assistia conversas de adultos. A liberdade deu nissso. Somos vítimas deles hoje….dos aborrecentes, que se acham os donos do mundo. Se possuem dinheiro entao, sao os donos da rua do mundo. E calcam sem dó seu vizinho, sua mãe, e quem por eles passar. É triste sim, mas realidade. Nao tem mais conserto.
    O fururo presidente? Nao sei.. se uma minoria frequenta uma faculdade hoje, se mal se alimentam, se o que vêem é a cartilha em que se baseiam, nao ha mais tempo pra nada.

Escreva seu comentário

Avatares são imagens pequenas que mostram sua personalidade. Você pode criar seu avatar gratuitamente hoje.

*

Copyright © 2012 Paulo Vilela. Todos os direitos reservados.
(11) 5975-4128
(11) 9622-7051
FG Solutions - Marketing Digital