O grande pequeno mundo

Numa festa junina, ao lado de uma fogueira, um menino pediu ao Santo João, um desses pedidos que não se faz a qualquer um, mas isso faz muito tempo, lá numa ruazinha de bairro que nem deve existir mais, e não sou nem o menino crescido, nem o João; tampouco sei qual foi o seu desejo, mas estava ao seu lado quando queimei a mão segurando uma brasa.

Anos depois tentei lembrar o meu pedido, mas se pedi algo nunca lembrei, sempre veio à cabeça o desastre de automóvel que consternou a minha rua, depois o destino daquele órfão indo lá pros confins de Tucuman.

Mudei de bairro, de cidade, de país. Os ponteiros do relógio deram milhares de voltas até meu olhar bater num rosto sombrio, de espessa e longa barba esbranquiçada, do outro lado do mundo. À  porta de uma igreja ortodoxa em Zagorvsky, o menino da minha infância parecia com essas imagens de cera ou de louça.

Seria possível, meu pai? Como ele se chamava mesmo? “Ei…ei, cê não era lá da Rua do Oratório?”

O padre virou-se rápido e me olhou como quem olha a nada. Nem insisti, pavor tamanho no fio da memória, seus olhos cinzas e opacos eram muito diferentes daqueles que um dia conheci, e um calafrio percorreu minhas artérias. Na retina, as imagens de uma mão queimada, de crianças que riam em volta de uma grande fogueira, e a estranha sensação de que o grande mundo é só uma pequena aldeia.

2 Comentários em “O grande pequeno mundo”

  • Vitorio Borella comentou no dia 23/10/2009

    Por que desafiar a vida ? se a vida é uma aventura que não conseguimos entender. As voltas dos ponteiros eram dadas para os dois, mas o ponto de ligação era comum, sobre este os ponteiros não tinham poder.
    Reencontrar assim é vencer a vida, superar as armadilhas que elas nos aprontou na desleal tentativa de nos fazer perder e sofrer. Aquele que ousa manobrar com a existência é imortal.
    Paulão parabéns, em poucas linhas vc escreveu emoções que não seriam possiveis de serem escritas em milhares de páginas.

  • paulovilela comentou no dia 23/10/2009

    Vitório,
    Ninguém que escreve, escreve pra si. Aqui, as palavras viajam pelo éter na velocidade da luz, mas só deixam de ser virtuais quando voltam a ser matéria. Saber que quem lê existe, faz a diferença. A vida não é virtual e não são as notas que recebemos que faz mudar um caráter. Fico feliz pelo que escreveu, e mais ainda porque talvez veja o que nem eu vejo. Então quero dizer que… perdeu uma viagem às cataratas por uma réles bicicleta, mas se viaja a pé, de barco, avião, ou só com a imaginação, e o mais distante que podemos ir é quando sem sair do lugar nossa alma vai até a esquina tomar um café e nos afastamos de nós mesmos.

Escreva seu comentário

Avatares são imagens pequenas que mostram sua personalidade. Você pode criar seu avatar gratuitamente hoje.

*

Copyright © 2012 Paulo Vilela. Todos os direitos reservados.
(11) 5975-4128
(11) 9622-7051
FG Solutions - Marketing Digital