O “Pós-Moderno” na Economia do Agronegócio

Quando se houve falar em pós-modernidade fora das artes é apenas uma maneira de dizer sobre o que é mais atual, nada a  ver com o movimento pós-moderno na arquitetura, p.ex., que rompeu com as regras do modernismo.

Na maioria do discursos  da economia do agronegócio, ouvimos muito falar sobre  “valor agregado, ecologicamente correto, manuseio sustentável etc”.  Palavras que defendem o “negócio” e o planeta, mas será mesmo que têm mais conteúdo que vazios? Então vejamos em números expressivos, nem tão precisos, nem tão imprecisos que nos desvie do caminho que pisamos:

Bois soltos no campo – 1 kg de carne advindo de uma criação bovina de um pasto natural  vale no mercado mundial menos que a água que o boi necessita na sua vida pra produzir este 1 kg de carne, logo não é absurdo pensar no oposto: exportamos a água sem agregar o valor da carne! Mas se o fizéssemos certamente ninguém do Primeiro Mundo compraria essa carne pelo dobro do preço, porque todos que a produzem teriam que fazer o mesmo, e isso não é uma coisa simples, mais fácil é agregar a marca, a etiqueta,  num supérfluo qualquer.

Bois confinados – para 1 kg de carne de um boi confinado é necessário mais ou menos 20 kg de ração balanceada, que obviamente custa menos que o 1 kg da carne. No entanto, o valor protéico dessa ração é mais ou menos 10 vezes o valor protéico de 1kg de carne. Exceto pelo sabor, isso é mais ou menos como se enfiássemos numa máquina 10 kg de proteínas e tirássemos na outra ponta 1kg da mesma proteína, o que sob certo ângulo não parece muito inteligente, muito menos ecologicamente correto. Obviamente que quem produz essa ração não é quem determina no mercado mundial, na bolsa de Londres etc., o seu preço.

Balanço energético: da agricultura rudimentar à modernidade passaram-se séculos até os arados motorizados,  as máquinas agrícolas de plantio e colheita, os insumos e defensivos… No agro-negócio, essa “supermodernidade” é a maximização da produtividade com o controle genético das sementes, a química sofisticada dos desfolhantes seletivos, irrigação forçada etc., sem se importar com mais nada. Assim, não interessa quantas montanhas se desmancham na produção de adubos, quantas toneladas de combustível são gastas pra isso; depois pra levá-los a grandes distâncias, espalhar os defensivos por aviões etc., e muito menos quantas mudanças isso causa no resto, desde que esse custo seja menor que o produto final. Desta forma, sob o ponto de vista não monetário, essa máquina invertida faz a proeza de gastar  6 ou 7 calorias pra produzir uma.

Mas o mundo dito civilizado fica admirado em ver laranjas crescerem no deserto e compara os números dessas agriculturas hodiernas com as primitivas, no entanto a agricultura atrasada e primitiva,  reprovada nos números da produtividade, usa uma caloria pra produzir duas!

As justificativas…

Ouvimos dizer que a necessidade crescente de alimentos no mundo é que faz o homem inventar fórmulas milagrosas pra melhorar a produtividade. Se isso vem na frente ou atrás das verdadeiras razões depende do ponto de vista. Pra mim o que move a ciência e a tecnologia nesse sentido não são as bilhões de bocas mais ou menos necessitadas, muito menos as muitos necessitadas, mas a ganância ilimitada de poucos cérebros. Há bem pouco tempo um consenso de especialistas sobre a fome dizia que menos que 1 bilhão de US resolveria esse problema no mundo (fome mesmo), mas o “Primeiro Mundo” não tinha como dispor desse montante! Quer dizer, não tinha até tirar da cartola uns 4 bilhões de US pra salvar…. salvar o que mesmo? Ah.. sim, salvar a si próprios.

Assim é, talvez alguns empresários e políticos até acreditem mesmo que estão contribuindo pra salvar o planeta quando falam em “manejo sustentável de florestas, ecologicamente correto etc “. Pode ser, não somos mesmo todos iguais. Pode ser, eu já vi muito cão atropelado e só tenho sono quando escuto isso.

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