Razão e Sensibilidade
- quarta-feira, 04/11/2009
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4 de outubro, deu na Folha: escolas municipais do Rio terão programa de proteção contra tiroteios.
A tal secretaria da educação está estudando uma maneira de treinar educadores e funcionários das escolas pra lidar com situações “emergenciais”. Li a notícia, mas em nenhum lugar falou-se em armaduras, coletes à prova de balas ou coisa parecida, nem proteção espiritual, corpo fechado, essas outras coisas…
Li outra vez pra saber se tinha entendido. É isso aí mesmo, e fiquei imaginando quem vai dar e como será esse treinamento, as professoras comportadas, sentadinhas, ouvindo um atirador de elite ou seu chefe:
— Quando um bando atravessar a escola com a polícia atrás trocando tiros, todo mundo se joga no chão e fica quietinho! Entenderam?
— Na horizontal a área de risco se reduz a 5% dado a dimensão vertical do corpo ficar reduzida a poucos centímetros…
Não, isso não pode ser sério, ou os cariocas enlouqueceram! Vão começar agora tratar o problema de trás pra frente? A quase totalidade de balas que encontram seu destino (bala perdida é só a que desaparece) na guerra dos morros e da polícia, tem um único motivo superconhecido: o tráfico de drogas, e até uma criança meio bobinha já ouviu isso. O filme Cidade de Deus do Meirelles, diferente de todos os outros filmes que abordam a violência no mundo das drogas, mostra que nas comunidades do tráfico ninguém passa dos 25 anos.
As drogas existem porque existe o consumidor. Isso é igual a qualquer outra coisa, é a lei do mercado. O Estado pode proibir o fumante nos locais públicos fechados e semi-fechados, mas não proíbe a venda do cigarro, que seria uma atitude facista, impopular, além de tirar empregos e ficar sem os milhões dos impostos.
O Estado não permite que se fume maconha em parte alguma, MAS TAMBÉM NÃO É CAPAZ DE IMPEDIR QUE SE FUME EM TODA PARTE, e trava uma guerra sem fim com o tráfico, que é tão lucrativo que nunca vai terminar, e quem crê que isso terá um fim só pode ser do tipo “me engana que eu gosto” ou faz parte do jogo só pra “inglês ver”.
O menino de dez anos que trabalha para o tráfico não tem a cabeça do menino que hoje fica grudado nos videosgames, luta com os dedos e só mata de mentirinha. Esse menino do tráfico daqui a pouco vai estar derrubando helicópteros da polícia e do exército, e o grande vilão dessa insanidade nada lírica chama-se canabis sativa, a popular maconha, que disputa o topo das preferências dos usuários com a cocaína, sobrando pra miséria o crack, que o nome já diz tudo.
Tem gente muito séria trabalhando há anos no sentido de regularizar o uso da maconha; cocaína também podia ser vendida em farmácia como se vende qualquer droga, o indivíduo dá o nome e pronto. Isso mudaria tudo, e parece tão fácil porque é fácil.
Com a regularização das drogas só uns poucos perdem muito. Perdem as gangues mal vestidas e as gangues bem vestidas. Quem ganha somos nós todos, que nada temos a ver com essa maldita entifada, o Estado que recolheria milhões em impostos e deixaria de encher o saco dos usuários adultos! E deus e o diabo juntos agradeceriam o Brasil que encerraria essa ponte aérea que abarrota o céu e o inferno com tantas almas penadas ou só azaradas!
O crack? Ah… esse sim é um problema! O problema de um país que pensa errado, que faz errado, que se perpetua nas insanidades e nunca olhou de frente suas crianças.
Um comentário em “Razão e Sensibilidade”
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Excelente retrato sócio-economico dessa chaga nacional: as drogas. Parabéns!