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	<title>Paulo Vilela &#187; mundo</title>
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	<description>Arquiteto Pós-moderno</description>
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		<title>A COISA</title>
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		<pubDate>Mon, 04 Jul 2011 03:19:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulovilela</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Não sei se foram os drumus ou os antuás que vieram de madrugada atrás das rádias. Acordei com a latição, acendi as luzes e saí de casa para ver as plantações, mas nada havia além da lua cheia e os cães alucinados. Na semana anterior já quase não dormi, quando tranquei os cachorros na cozinha [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não sei se foram os drumus ou os antuás que vieram de madrugada atrás das rádias. Acordei com a latição, acendi as luzes e saí de casa para ver as plantações, mas nada havia além da lua cheia e os cães alucinados.</p>
<p>Na semana anterior já quase não dormi, quando tranquei os cachorros na cozinha e fiquei tocaiado num galho da figueira à espera deles, que tampouco apareceram.</p>
<p>Não sei quem deu esse estranho nome a esses animais, nem de onde eles vêm ou aonde dormem, se é que dormem. Ninguém os conhece de verdade, mas é voz corrente que só eles podem digerir a rádia, essa coisa amarga e cheia de espinhos utilizada na fabricação do remédio pra combater a doença de chília.</p>
<p>Tive um parente com essa doença, vi seu sofrimento, e mais tarde sua cura total com o remédio feito da rádia. Fiquei curioso e pesquisei sobre essa estranha planta. Li tudo que encontrei sobre o assunto e também descobri que só uma única região do país é que se a cultiva, e que como as plantações de cravos ela necessita de muita água e cuidados especiais.</p>
<p>Pra quem não conhece, a rádia lembra um cactus de tom amarelado, que quando amadurece desabrocha uma única flor branca, de pétalas triangulares no topo do caule. Mas só tem valor comercial seu fuste, os brotos têm que ser erradicados no momento que nascem, motivo dos cuidados diários. A produção média semestral por família não passa dos 100kg de rádia seca, mas poderia ser quase o dobro sem os ataques dos drumus e antuás.</p>
<p>Recordo de alguém ter me dito <span style="text-decoration: underline">“Se não tem no Google, é porque não existe&#8230;”</span> Pois não tem no Google nem drumus, nem antuás, e ninguém que é vivo os conhece. Não caem nas armadilhas, e não há espantalho, agrotóxico, cão ou arapuca que os impeça de levar as rádias, que simplesmente desaparecem. Metade da produção fica com eles e isso ninguém aceita nem se conforma.</p>
<p>Por alguma espécie de fascínio por essa planta (obviamente não ouvira falar desses animais), numas férias resolvi visitar o local. E acabei adquirindo de imediato a propriedade de um ancião que mudou-se para a cidade depois da morte da esposa.</p>
<p>E se larguei tudo com extrema facilidade, não foi por saudades da roça, que nunca encabei uma enxada nem fui agricultor. Há coisas que não se explicam, mas igual a qualquer outro daqui também não me conformei com esses roubos, que já me fazia pensar em coisas que nunca imaginei.</p>
<p>No dia que cheguei de mudança já fui convidado pelos vizinhos para as reuniões de sexta à noite aonde eles discutiam esse problema há anos. Na casa de um dos moradores, uma espécie de bar,  entre umas cervejas e outras, &#8220;causos&#8221; e risadas, vão surgindo as idéias.</p>
<p>Era minha primeira aparição e cogitei se não eram aves noturnas, já que pelo chão não deixavam pegadas ou rastros, mas todos caíram na risada. Não entendi o porquê, também não me importei e logo percebi que idéias pra combatê-los nunca faltaram e já se tentara toda espécie de armadilhas &#8212;  buracos disfarçados com folhas, redes, arapucas com grades&#8230;</p>
<p>Certa vez, um dos moradores, engenheiro cheio de nove horas, criou uma câmara fotográfica acionada pelo latido dos cães e montou a tramóia no meio da sua plantação. Dia seguinte quando viu as fotos&#8230;  nada de drumus ou antuás, só seus cães e o vazio aberto no meio da plantação das rádias que faltavam.</p>
<p>Com o passar do tempo fui conhecendo melhor cada um deles. Alguns achavam que era perder tempo qualquer tentativa de detê-los, que por algum motivo devia ser coisa da providência divina, afinal todos tinham saúde e eram felizes. Sem largar dos copos ouvi de um grupo que tudo indicava ser coisa de alienígenas.</p>
<p>Como morador novo não entendia direito essa história, mas tinha comigo que isso não era coisa de quadrúpede, E.T. ou alma penada. Ninguém, nem gente, nem cão, foi ferido ou abduzido, e as rádias sempre foram arrancadas pela raiz, sem marcas de dentes ou algo similar.</p>
<p>E fui analisando minuciosamente o que ouvia nas reuniões, que entre outras coisas, uma ao menos parecia certa: só atacavam durante a madrugada e nunca durante as chuvas. Cartesianamente logo concluí que fosse quem fosse não  gostava de se molhar, e sem comentar nada, como água não faltava ali, montei um sistema que puxava água do rio criando uma chuva fina todas as noites na minha plantação.</p>
<p>Deu supercerto. Os cães não latiam mais, eu dormia a noite toda e ninguém roubava mais nada. Guardei segredo por dois meses, pois nunca gostei de acusar ninguém sem provas, isso é calúnia, mas já vinha fazendo anotações sobre a produção de todos e me chamou a atenção a do velho solitário que produzia mais que qualquer um, bebia mais que qualquer outro, detestava tomar banho e tinha um estranho poder sobre os cachorros.</p>
<p>Era óbvio, tava na cara, e me senti o próprio Sherlock Holmes! Mas quando pensei em anunciar a descoberta, minhas rádias começaram a se curvar. Tarde demais, paradoxalmente elas que necessitavam tanto de água nas raízes não suportaram as chuvas que inventei. Matei-as pelo excesso! Graças à minha esperteza perdi toda a plantação, e pra não passar por ridículo pus a culpa em algum nematóide que se instalou invisível nas raízes. Na hora lembrei  do meu pai, que dizia que nem tudo que parece é. Envergonhado não fui à reunião daquela noite e em nenhuma mais.</p>
<p>Assim&#8230; desisti. E aquele lugar voltou a ser só deles, que tinham nas sextas-feiras o motivo das suas vidas.</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>A HISTÓRIA DO NIL</title>
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		<pubDate>Wed, 13 Apr 2011 04:10:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulovilela</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Pra quem não sabe,  Embu-Guaçu significa cobra grande na linguagem dos aborígenes. A cidade nasceu pelos santistas que no início do século passado subiam a serra de trem para ares mais frescos, e até hoje é cortada pela ferrovia que vem do interior do estado e segue para o litoral. No alto da Serra do Mar, nas nascentes [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Pra quem não sabe,  Embu-Guaçu significa cobra grande na linguagem dos aborígenes. A cidade nasceu pelos santistas que no início do século passado subiam a serra de trem para ares mais frescos, e até hoje é cortada pela ferrovia que vem do interior do estado e segue para o litoral.</p>
<p>No alto da Serra do Mar, nas nascentes da Represa de Guarapiranga, Embu-Guaçu não há tanto tempo foi considerada a menos violenta das cidades da Grande S.Paulo. Também não há tanto tempo chegou a ser a segunda mais violenta. No presente, pela mesma estatística, situa-se numa escala intermediária .</p>
<p>Sem fugir à regra, a cidade cresceu muito nos últimos anos. Se não era um deslumbre,  era graciosa e calma.   Cresceu, mas quando me perguntam &#8220;Tem MacDonald?&#8221;  Não, não tem, mas agências bancárias não faltam.  Cinema também não tem, em compensação tem uma espécie de Panteòn mal copiado, idéia de não sei quem, que abriga as Secretarias de Esportes e Cultura e sei lá mais o quê.</p>
<p>Coisas intrigantes, isso tem! Não conheço nenhum lugar com mais lojas de sapatos  “per capta” e igrejas evangélicas ou protestantes, que não protestam nada evidentemente. Ah&#8230; quase esqueci do descomunal supermercado só de carnes, aonde os cachorros vira-latas da região se encontram pra longos bate-papos na hora do fechamento, quando lavam os pisos e a água corre pela calçada até o meio fio. Do meio fio, com espuma de sabão,  segue disfarçadamente por caminhos tortuosos até o primeiro corpo d´água, cujo destino final é sempre a Represa de Guarapiranga, esta totalmente desprotegida, digo protegida, por uma série de Leis sobre os Mananciais desde 1975.</p>
<p>Não sei se chega a ser intrigante também o fato de que vizinho do super-açougue, além dos cães tem a Delegacia Municipal de Polícia, que em certa ocasião perguntei à policial feminina, ali estacionada na porta, se aquilo podia. Ela me olhou como se eu fosse um ET&#8230; &#8212; Ahn? Fiz então a mesma pergunta formulada de outra maneira, mas com cara de não muitos amigos ela me disse pra eu procurar a Secretaria de Saúde se não estivesse satisfeito.</p>
<p>Não estava nem estou, mas também não era isso que pensei em escrever quando comecei dizendo que era uma cidade graciosa e calma, onde era quase um prazer o ir a um banco ou postar uma carta, por exemplo. Mas, com base nas idéias utilizadas pelas metrópoles, eles conseguiram transformar a cidade numa meleca. Eles quem? Ora, os especialistas!  Começaram pelas lombadas&#8230;. uma aqui, outra acolá&#8230; Encheram a cidade de morrinhos; depois, a cada nova administração, como tudo era ótimo e não havia o que fazer, tinham que inventar, aliás copiar, e copiaram de S.Paulo a modernidade! Pronto, uma, duas, três ruas&#8230; que só vai pra um lado e tudo virou contra-mão! Então, perdidos, todos se juntam em voltas enormes pra passar nos mesmos lugares, assim os gênios do urbanismo conseguiram criar &#8220;trânsito&#8221;,  e a cidade outrora calma já se equipara à estupidez das metrópoles.</p>
<p>Semáforo não tem, ufa! Aliás, ganharam um do governo do estado, mas logo quebrou e assim ficou. Sem coragem de retirar o inútil, este ainda permanece altivo, mas só pisca há mais de ano. Agora, todo esse preâmbulo foi  pra situar no tempo e no espaço a história do meu amigo, que vive na beiradinha da cidade, e que resolveu ir de carro comprar um remédio na farmácia a cinco quadras da sua casa.</p>
<p>Era hora do almoço, o cheiro da comida impregnava paredes. A empregada na porta: &#8212; Não vai comer antes de sair,  Seu Nil? A comida está pronta! Ele faz um gesto com a mão de zapt-zupt, e diz que em cinco minutinhos estaria de volta.</p>
<p>Abriu o portão, pôs o carro pra fora, desceu, fechou o portão, entrou novamente no carro e seguiu para a farmácia. Dois minutos e já estava na Botica, quer dizer, passou em frente, porque vaga não tinha pra estacionar. Desceu pela transversal, virou à esquerda (uma volta no quarteirão depois das modernizações com as contra-mãos significa sempre uns quatro). Repetiu o caminho e nenhuma vaga.</p>
<p>Insistente e conhecedor das pairagens, passou pro outro lado da avenida, mais umas voltas gigantes e nada de uma vaguinha&#8230; Assim, de lá pra cá, foi indo e indo e acabou achando uma bem apertadinha entre uma caminhonete e uma caçamba de obra. Bom manobrista que é, depois de umas tentativas encaixou o veículo como uma luva. Saiu do carro, olhou com certo orgulho a quase proeza! &#8212; Putz, enfim..! Falou pra si, já com o saco cheio. &#8212; Aonde é mesmo a farmácia? Pensativo, tentando se nortear, tonto que estava. Olhou novamente para o carro, o muro de um colégio todo pichado, pôs os óculos&#8230;</p>
<p>A uns trinta metros dali, no portão da sua casa, a prestimosa empregada grita: &#8212; Ô Seu Nil, por que não parou na garagem? A comida está esfriando!</p>
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		<title>Ticha</title>
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		<pubDate>Tue, 08 Feb 2011 02:11:29 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Vou te chamar Ticha porque não sei o teu nome. Ficaste calada quando perguntei, mas teus olhos falaram pela tua boca e me contaram coisas terríveis. Se ainda vives, menina guarani, espero nunca te encontrar, quero lembrar a inocência sem infâmias, que certamente fez-te criança por mais algum tempo. Se ainda vives, menina crescida, deves [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Vou te chamar Ticha</p>
<p>porque não sei o teu nome.</p>
<p>Ficaste calada quando perguntei,</p>
<p>mas teus olhos falaram pela tua boca</p>
<p>e me contaram coisas terríveis.</p>
<p>Se ainda vives, menina guarani,</p>
<p>espero nunca te encontrar,</p>
<p>quero lembrar a inocência sem infâmias,</p>
<p>que certamente fez-te criança</p>
<p>por mais algum tempo.</p>
<p>Se ainda vives, menina crescida,</p>
<p>deves ter aprendido a rezar, a chorar.</p>
<p>E também que nesse mundo</p>
<p>uma flecha só vale um mac donald</p>
<p>e não cabe mais índios como tu e teus irmãos.</p>
<p>E se guardei tua foto tão bem guardada</p>
<p>foi pra nunca mais encontrar-te,</p>
<p>mas essa noite sonhei contigo, fiz as contas&#8230;</p>
<p>Deves ter quase quarenta</p>
<p>e tua aldeia quase nenhum.</p>
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		<title>Arquitetura pós-moderna do Inferno e do Céu, e outras idéias.</title>
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		<pubDate>Thu, 13 Jan 2011 06:21:39 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[﻿Citados no Gênesis, Céu e Inferno estão comemorando muitas velinhas, mas ninguém que eu conheça já foi a um desses “lugares” e voltou pra dizer como são. De qualquer forma, metaforicamente dizemos que estamos no Inferno quando não estamos bem, e ao contrário, no Paraíso ou no Céu. Isso é o normal, porque o cérebro [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>﻿Citados no <a title="Gênesis" href="http://www.bibliaonline.com.br/acf/1/1" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.bibliaonline.com.br/acf/1/1?referer=');">Gênesis</a>, Céu e Inferno estão comemorando muitas velinhas, mas ninguém que eu conheça já foi a um desses “lugares” e voltou pra dizer como são. De qualquer forma, metaforicamente dizemos que estamos no Inferno quando não estamos bem, e ao contrário, no Paraíso ou no Céu. Isso é o normal, porque o cérebro trabalha por comparação, como um grande computador, e os <em>genes </em>registram imagens desde nossos ancestrais.</p>
<p>Jung falou sobre o inconsciente coletivo, cientistas buscam descobrir aonde e como estão registrados esses dados no <em>gene</em>, mas mesmo que não fôssemos tão longe, que eles não descubram com a exatidão que buscam, é seguro afirmar que inventamos imagens relacionadas com estes extremos da felicidade e do sofrimento desde que nos conhecemos por gente. Imagens que criamos a partir do nascimento,  pelos nossos sonhos e pesadelos, adicionadas pela dor, culpa, enfim pela moral judaica-cristã que respiramos.</p>
<p>A maioria tem o Céu no céu mesmo, algo limpo, azul, etéril, calmo, como não podia deixar de ser. E o Inferno sempre sujo, poluído, quente, nas entranhas da Terra. Na arquitetura de um músico, um virtuose clássico, não faltaria no ar do Paraíso um Beethoven, um Mozart, e no Inferno o toque especial de um pagode; já para um surdo-mudo, ao contrário, daria a eles o silêncio absoluto. Nem tenho idéia como seria a arquitetura do imaginário de um cego de nascença, mas sabendo diferenciar alegria de tristeza certamente teria a sua forma também.</p>
<p>Como qualquer um criei minhas imagens ao longo da infância, alteradas na adolescência, e na envelhecência (termo criado por Mario Prata). E comecei como a maioria também: Céu, lugar cálido; Inferno, algo que queima e dói. Aos poucos fui criando espaços diferentes. Salas de recepção em ambos lugares. No Céu, bancos de jardim entre plantas maravilhosas; no Inferno, prisões eletrônicas controladas à distância pelo demônio, e por aí fui.</p>
<p>Meu Céu não precisava mais de obras com tetos e passei a utilizar materiais leves, vidros, transparências&#8230; No Inferno, sempre à meia-luz, escavações em rochas comos os trogloditas da Anatólia, mal cheiro permanente&#8230;</p>
<p>Mas como eu, minha arquitetura nunca parou de mudar, e o conceito do pós-moderno substituiu minhas construções anteriores. Passei a usar mais a cor, curvas, e quebrei a indiferente e fria distância que me separava destas imagens.</p>
<p>Adiante, retirei o  supérfluo dessa arquitetura até o ponto de não precisar mais do que era matéria, quando passei a ver o Universo com outros olhos, onde Mal e Bem são só invenções humanas.</p>
<p>Mas como geômetra me senti compelido a ir mais longe, e sem sair de mim, como modernamente se faz uma fábrica dentro da outra, criei um novíssimo Inferno dentro do Paraíso. Assim ao abrir uma porta, quase instantaneamente passo de um lugar ao outro.</p>
<p>E nem foi preciso um corredor para imitar o Purgatório, só a repentina e inesperada alteração da temperatura ao abrir a porta (não importando pra qual lado vou), é suficiente pelo susto me trazer horríveis calafrios, esse pedágio gelado, pra em seguida tudo parecer estar em chamas. Penso ter feito jus a essa passagem, esse mal momento antes que se acostume com as mudanças.</p>
<p>Assim, Céu e Inferno ficaram uma coisa tão próxima, que por vezes durmo num lugar e acordo no outro. Às vezes me vem à cabeça  “O inferno somos nós mesmos..” Sartre, Entre Quatro Paredes. Ops, ia me esquecendo&#8230; Se minha arquitetura se alterou na forma, nos materiais, até chegar nessa invenção que é só uma espécie de ar que respiro, habitantes nunca pus nenhum, nem eles invadiram meus espaços sempre vagos. E exceto uma voz feminina que ouço me chamando, que me faz ir de um lugar ao outro, em nenhum tempo alguém apareceu por lá, nem mesmo Lúcifer, nem Deus &#8212; sempre foi assim, desde criança. A voz não, essa nem sempre a mesma, mas duas diferentes no mesmo tempo, nunca ouvi também.</p>
<p>Não que goste desses chamados, ao contrário, detesto-os. Mas, paradoxalmente, quando passo um longo tempo fora, ainda que esteja numa multidão, sinto que estou só em nenhum lugar do mundo.</p>
<p>Pela minha natureza, esse fel permanente do que é pacato e morno, segurança de quem vai antes da hora&#8230; ah não! Então, se alguém me pergunta o que prefiro, se o aqui ou o ali &#8212; não sou mazoquista pra dizer que prefiro a dor, mas no Inferno se fica mais atento à vida. Me concentro, aguço os sentidos&#8230; chamo a voz que preciso, e quando a ouço, só tem uma porta que me separa do Paraíso. No fundo, lá no fundo mesmo, antes estar entre esses dois mundos que em lugar algum.</p>
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		<title>VERGONHA</title>
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		<pubDate>Thu, 11 Feb 2010 01:00:50 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[problema social]]></category>

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		<description><![CDATA[O filme holandês premiado com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro – CARÁTER, e  O HOMEM MAU DORME BEM, de Akira kurosawa, têm roteiros muito distintos, mas sub-repticiamente têm algo em comum, ambos falam sobre o conviver com culpas e não-culpas. O primeiro fala de um homem que tenta reconquistar uma mulher que é “caráter [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O filme holandês premiado com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro – CARÁTER, e  <a title="Homem mau dorme bem" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Homem_Mau_Dorme_bem" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Homem_Mau_Dorme_bem?referer=');">O HOMEM MAU DORME BEM</a>, de <a title="Akira Kurosawa" href="http://www.uesb.br/janela/diretores_ver.asp?cod=10" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.uesb.br/janela/diretores_ver.asp?cod=10&amp;referer=');">Akira kurosawa</a>, têm roteiros muito distintos, mas sub-repticiamente têm algo em comum, ambos falam sobre o conviver com culpas e não-culpas. O primeiro fala de um homem que tenta reconquistar uma mulher que é “caráter antes de tudo&#8221;, e que não o perdôa; o segundo, mostra um homem que troca de identidade com um amigo pra se aproximar do assassino do pai, homem sem escrúpulos, e fazer justiça com as próprias mãos.</p>
<p><span style="text-decoration: underline;"><a title="Erasmo de Roterda" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Erasmo_de_Roterd%C3%A3o" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Erasmo_de_Roterd_C3_A3o?referer=');">Erasmo de Roterdã</a> no seu Elogio À Loucura</span>, diz que dores de amores cada qual sente à sua maneira, um pode não perdoar, outro nem ligar, outro ainda chegar ao extremo de matar os envolvidos e a si mesmo, porque isso varia com a formação do indivíduo, tipo de sociedade etc., mas uma pedrada na cabeça dói igual a qualquer um, e a dor de uma pedrada não gera culpas no atingido.</p>
<p>Não deve haver mesmo nesse mundo alguém sem defeitos, mas há coisas que não se perdoa em nenhuma sociedade, coisas que não dependem da estrutura social, como matar sem motivo, roubar de quem nada tem, humilhar pessoas seja pelo aspecto cultural ou econômico, maltratar animais indefesos, lesar a pátria com negócios escusos pra benefício próprio, se passar por outra pessoa pra ter o reconhecimento que não pode ter.</p>
<p>O indivíduo armado vai roubar&#8230; e rouba, depois, sem nenhuma adversidade, olha pro cara e dá um “tec”. O que se pode pensar sobre a personalidade de um tipo assim? Ou de um que rouba o tênis sem marca e o dinheiro da condução de um operário na estação do trem às 6hs da manhã? Ou do motorista que desvia da sua faixa na direção de um quatro-patas para atropelá-lo?</p>
<p><a title="Discurso Sobre a Origem e os Fundamentos Desigualdade entre os Homens" href="http://www.submarino.com.br/produto/1/21474151/discurso+sobre+a+origem+e+os+fundamentos+desigualdade+entre+os+homens" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.submarino.com.br/produto/1/21474151/discurso+sobre+a+origem+e+os+fundamentos+desigualdade+entre+os+homens?referer=');">J.J.Rosseau no Discurso Sobre a Origem da Desigualdade Entre os Homens</a> diz que o homem nasce bom, e a sociedade o perverte. É uma idéia, mas se é fato que nas sociedades mais pobres e menos justas essas pessoas proliferam como moscas, e a sociedade tem grande responsabilidade por essas crias deformadas, nas comunidades mais desenvolvidas esses criminosos “sem culpas”  também existem, e caímos num abismo se pensarmos que o homem já nasce mau,  porque  então vivemos num zoológico sem jaulas.</p>
<p>Agora, diferentemente desses monstros “sem culpas”, há os polidos e bem-vestidos, que lesam a pátria com suas “negociatas”, emprobrecendo todos os demais, e os que mentem descaradamente dizendo ao mundo que fizeram coisas que não fizeram nem têm condições de fazer, apropriando-se de direito autoral, e recebendo os louros que não lhes pertence. <span style="text-decoration: underline;">Ambos, quando não são psicopatas </span>(normalmente são), têm remorsos mais cedo ou mais tarde e até mudam o rumo de sua vidas, está cheio de exemplos conhecidos, mas nunca devolvem o que se apropriaram, nem dinheiros, nem a identidade roubada. Podem enganar suas mulheres, seus filhos, meia dúzia de amigos, vizinhos, e até um povo inteiro, por certo tempo, mas não a si mesmos.</p>
<p>Claro que se forem psicopatas vão dormir em paz até o último dia de suas vidas,  sortudos que são,  eximidos de culpas, se o destino não lhes reservar algo trágico dos lesados.</p>
<p>Não pude evitar de colocar os ladrões de direitos autorais entre os “imperdoáveis”, porque projetei e fiz obras que os proprietários usaram o meu conhecimento, talvez a minha arte, a minha dedicação, mentindo a todos os seus conhecidos como autores das suas fantasias. E penso nos milhares de cigarros que fumei, nas noites que fiquei acordado pra lhes dar o melhor de mim, no tempo todo que não soube; depois, no tempo que fiquei calado, porque a vida é pra frente. Talvez seja o mal de ser democrático, mas imaginava se tratar de casos  isolados, até que esta semana soube de mais um arquiteto de mentirinha. Pobre mundo doente!</p>
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		<title>O grande pequeno mundo</title>
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		<pubDate>Fri, 23 Oct 2009 12:02:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulovilela</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Numa festa junina, ao lado de uma fogueira, um menino pediu ao <a title="Santo João" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Baptista" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Jo_C3_A3o_Baptista?referer=');">Santo João</a>, um desses pedidos que não se faz a qualquer um, mas isso faz muito tempo, lá numa ruazinha de bairro que nem deve existir mais, e não sou nem o menino crescido, nem o João; tampouco sei qual foi o seu desejo, mas estava ao seu lado quando queimei a mão segurando uma brasa.</p>
<p>Anos depois tentei lembrar o meu pedido, mas se pedi algo nunca lembrei, sempre veio à cabeça o desastre de automóvel que consternou a minha rua, depois o destino daquele órfão indo lá pros confins de Tucuman.</p>
<p>Mudei de bairro, de cidade, de país. Os ponteiros do relógio deram milhares de voltas até meu olhar bater num rosto sombrio, de espessa e longa barba esbranquiçada, do outro lado do mundo. À  porta de uma igreja ortodoxa em Zagorvsky, o menino da minha infância parecia com essas imagens de cera ou de louça.</p>
<p>Seria possível, meu pai? Como ele se chamava mesmo? <em>“Ei&#8230;ei, cê não era lá da Rua do Oratório?” </em></p>
<p>O padre virou-se rápido e me olhou como quem olha a nada. Nem insisti, pavor tamanho no fio da memória, seus olhos cinzas e opacos eram muito diferentes daqueles que um dia conheci, e um calafrio percorreu minhas artérias. Na retina, as imagens de uma mão queimada, de crianças que riam em volta de uma grande fogueira, e a estranha sensação de que o grande mundo é só uma pequena aldeia.</p>
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