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	<title>Paulo Vilela &#187; poesias</title>
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	<description>Arquiteto Pós-moderno</description>
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		<title>A HISTÓRIA DO NIL</title>
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		<pubDate>Wed, 13 Apr 2011 04:10:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulovilela</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Pra quem não sabe,  Embu-Guaçu significa cobra grande na linguagem dos aborígenes. A cidade nasceu pelos santistas que no início do século passado subiam a serra de trem para ares mais frescos, e até hoje é cortada pela ferrovia que vem do interior do estado e segue para o litoral. No alto da Serra do Mar, nas nascentes [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Pra quem não sabe,  Embu-Guaçu significa cobra grande na linguagem dos aborígenes. A cidade nasceu pelos santistas que no início do século passado subiam a serra de trem para ares mais frescos, e até hoje é cortada pela ferrovia que vem do interior do estado e segue para o litoral.</p>
<p>No alto da Serra do Mar, nas nascentes da Represa de Guarapiranga, Embu-Guaçu não há tanto tempo foi considerada a menos violenta das cidades da Grande S.Paulo. Também não há tanto tempo chegou a ser a segunda mais violenta. No presente, pela mesma estatística, situa-se numa escala intermediária .</p>
<p>Sem fugir à regra, a cidade cresceu muito nos últimos anos. Se não era um deslumbre,  era graciosa e calma.   Cresceu, mas quando me perguntam &#8220;Tem MacDonald?&#8221;  Não, não tem, mas agências bancárias não faltam.  Cinema também não tem, em compensação tem uma espécie de Panteòn mal copiado, idéia de não sei quem, que abriga as Secretarias de Esportes e Cultura e sei lá mais o quê.</p>
<p>Coisas intrigantes, isso tem! Não conheço nenhum lugar com mais lojas de sapatos  “per capta” e igrejas evangélicas ou protestantes, que não protestam nada evidentemente. Ah&#8230; quase esqueci do descomunal supermercado só de carnes, aonde os cachorros vira-latas da região se encontram pra longos bate-papos na hora do fechamento, quando lavam os pisos e a água corre pela calçada até o meio fio. Do meio fio, com espuma de sabão,  segue disfarçadamente por caminhos tortuosos até o primeiro corpo d´água, cujo destino final é sempre a Represa de Guarapiranga, esta totalmente desprotegida, digo protegida, por uma série de Leis sobre os Mananciais desde 1975.</p>
<p>Não sei se chega a ser intrigante também o fato de que vizinho do super-açougue, além dos cães tem a Delegacia Municipal de Polícia, que em certa ocasião perguntei à policial feminina, ali estacionada na porta, se aquilo podia. Ela me olhou como se eu fosse um ET&#8230; &#8212; Ahn? Fiz então a mesma pergunta formulada de outra maneira, mas com cara de não muitos amigos ela me disse pra eu procurar a Secretaria de Saúde se não estivesse satisfeito.</p>
<p>Não estava nem estou, mas também não era isso que pensei em escrever quando comecei dizendo que era uma cidade graciosa e calma, onde era quase um prazer o ir a um banco ou postar uma carta, por exemplo. Mas, com base nas idéias utilizadas pelas metrópoles, eles conseguiram transformar a cidade numa meleca. Eles quem? Ora, os especialistas!  Começaram pelas lombadas&#8230;. uma aqui, outra acolá&#8230; Encheram a cidade de morrinhos; depois, a cada nova administração, como tudo era ótimo e não havia o que fazer, tinham que inventar, aliás copiar, e copiaram de S.Paulo a modernidade! Pronto, uma, duas, três ruas&#8230; que só vai pra um lado e tudo virou contra-mão! Então, perdidos, todos se juntam em voltas enormes pra passar nos mesmos lugares, assim os gênios do urbanismo conseguiram criar &#8220;trânsito&#8221;,  e a cidade outrora calma já se equipara à estupidez das metrópoles.</p>
<p>Semáforo não tem, ufa! Aliás, ganharam um do governo do estado, mas logo quebrou e assim ficou. Sem coragem de retirar o inútil, este ainda permanece altivo, mas só pisca há mais de ano. Agora, todo esse preâmbulo foi  pra situar no tempo e no espaço a história do meu amigo, que vive na beiradinha da cidade, e que resolveu ir de carro comprar um remédio na farmácia a cinco quadras da sua casa.</p>
<p>Era hora do almoço, o cheiro da comida impregnava paredes. A empregada na porta: &#8212; Não vai comer antes de sair,  Seu Nil? A comida está pronta! Ele faz um gesto com a mão de zapt-zupt, e diz que em cinco minutinhos estaria de volta.</p>
<p>Abriu o portão, pôs o carro pra fora, desceu, fechou o portão, entrou novamente no carro e seguiu para a farmácia. Dois minutos e já estava na Botica, quer dizer, passou em frente, porque vaga não tinha pra estacionar. Desceu pela transversal, virou à esquerda (uma volta no quarteirão depois das modernizações com as contra-mãos significa sempre uns quatro). Repetiu o caminho e nenhuma vaga.</p>
<p>Insistente e conhecedor das pairagens, passou pro outro lado da avenida, mais umas voltas gigantes e nada de uma vaguinha&#8230; Assim, de lá pra cá, foi indo e indo e acabou achando uma bem apertadinha entre uma caminhonete e uma caçamba de obra. Bom manobrista que é, depois de umas tentativas encaixou o veículo como uma luva. Saiu do carro, olhou com certo orgulho a quase proeza! &#8212; Putz, enfim..! Falou pra si, já com o saco cheio. &#8212; Aonde é mesmo a farmácia? Pensativo, tentando se nortear, tonto que estava. Olhou novamente para o carro, o muro de um colégio todo pichado, pôs os óculos&#8230;</p>
<p>A uns trinta metros dali, no portão da sua casa, a prestimosa empregada grita: &#8212; Ô Seu Nil, por que não parou na garagem? A comida está esfriando!</p>
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		<title>Ticha</title>
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		<pubDate>Tue, 08 Feb 2011 02:11:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulovilela</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Vou te chamar Ticha porque não sei o teu nome. Ficaste calada quando perguntei, mas teus olhos falaram pela tua boca e me contaram coisas terríveis. Se ainda vives, menina guarani, espero nunca te encontrar, quero lembrar a inocência sem infâmias, que certamente fez-te criança por mais algum tempo. Se ainda vives, menina crescida, deves [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Vou te chamar Ticha</p>
<p>porque não sei o teu nome.</p>
<p>Ficaste calada quando perguntei,</p>
<p>mas teus olhos falaram pela tua boca</p>
<p>e me contaram coisas terríveis.</p>
<p>Se ainda vives, menina guarani,</p>
<p>espero nunca te encontrar,</p>
<p>quero lembrar a inocência sem infâmias,</p>
<p>que certamente fez-te criança</p>
<p>por mais algum tempo.</p>
<p>Se ainda vives, menina crescida,</p>
<p>deves ter aprendido a rezar, a chorar.</p>
<p>E também que nesse mundo</p>
<p>uma flecha só vale um mac donald</p>
<p>e não cabe mais índios como tu e teus irmãos.</p>
<p>E se guardei tua foto tão bem guardada</p>
<p>foi pra nunca mais encontrar-te,</p>
<p>mas essa noite sonhei contigo, fiz as contas&#8230;</p>
<p>Deves ter quase quarenta</p>
<p>e tua aldeia quase nenhum.</p>
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		<title>NEGRA, NEGRA&#8230;</title>
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		<pubDate>Sat, 18 Dec 2010 03:28:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulovilela</dc:creator>
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		<category><![CDATA[anacrônico]]></category>
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		<category><![CDATA[poesias]]></category>

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		<description><![CDATA[Negra, negra, negra&#8230; Que sob a pálida tez alva a infâmia do absurdo tingiu. Albino corpo fora de forma como alma sem peso, sangra negro, negro, negro&#8230; Asas que não voam, de arame, ternura e éter mancham o que esbarram. Nem a neblina esconde, nem o breu a água lava, negra pálida como o sal! Esse piche se não é seu, não é [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Negra, negra, negra&#8230; </strong></p>
<p><strong>Que sob a pálida </strong><strong>tez alva</strong></p>
<p><strong>a infâmia do absurdo tingiu.</strong></p>
<p><strong><br />
</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>Albino corpo fora de forma</strong></p>
<p><strong>como alma sem peso,</strong></p>
<p><strong> </strong><strong>sangra negro, negro, negro&#8230;</strong></p>
<p><strong><br />
</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>Asas que não voam,</strong></p>
<p><strong>de arame, ternura e </strong><strong>éter</strong></p>
<p><strong> </strong><strong>mancham o que esbarram.</strong></p>
<p><strong><br />
</strong></p>
<p><strong>Nem a neblina esconde,</strong></p>
<p><strong>nem o breu a água lava,</strong></p>
<p><strong>negra pálida como o sal!</strong></p>
<p><strong><br />
</strong></p>
<p><strong>Esse piche se não é seu,</strong></p>
<p><strong>não é também dessa vida</strong></p>
<p><strong>essa tinta que não é tinta.</strong></p>
]]></content:encoded>
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		<title>O grande pequeno mundo</title>
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		<pubDate>Fri, 23 Oct 2009 12:02:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulovilela</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Numa festa junina, ao lado de uma fogueira, um menino pediu ao Santo João, um desses pedidos que não se faz a qualquer um, mas isso faz muito tempo, lá numa ruazinha de bairro que nem deve existir mais, e não sou nem o menino crescido, nem o João; tampouco sei qual foi o seu [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Numa festa junina, ao lado de uma fogueira, um menino pediu ao <a title="Santo João" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Baptista" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Jo_C3_A3o_Baptista?referer=');">Santo João</a>, um desses pedidos que não se faz a qualquer um, mas isso faz muito tempo, lá numa ruazinha de bairro que nem deve existir mais, e não sou nem o menino crescido, nem o João; tampouco sei qual foi o seu desejo, mas estava ao seu lado quando queimei a mão segurando uma brasa.</p>
<p>Anos depois tentei lembrar o meu pedido, mas se pedi algo nunca lembrei, sempre veio à cabeça o desastre de automóvel que consternou a minha rua, depois o destino daquele órfão indo lá pros confins de Tucuman.</p>
<p>Mudei de bairro, de cidade, de país. Os ponteiros do relógio deram milhares de voltas até meu olhar bater num rosto sombrio, de espessa e longa barba esbranquiçada, do outro lado do mundo. À  porta de uma igreja ortodoxa em Zagorvsky, o menino da minha infância parecia com essas imagens de cera ou de louça.</p>
<p>Seria possível, meu pai? Como ele se chamava mesmo? <em>“Ei&#8230;ei, cê não era lá da Rua do Oratório?” </em></p>
<p>O padre virou-se rápido e me olhou como quem olha a nada. Nem insisti, pavor tamanho no fio da memória, seus olhos cinzas e opacos eram muito diferentes daqueles que um dia conheci, e um calafrio percorreu minhas artérias. Na retina, as imagens de uma mão queimada, de crianças que riam em volta de uma grande fogueira, e a estranha sensação de que o grande mundo é só uma pequena aldeia.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Arquitetura do Vento</title>
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		<pubDate>Wed, 30 Sep 2009 14:42:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulovilela</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Atrás de casa tinha uma árvore, atrás da árvore tinha uma pedra, atrás da pedra não tinha nada. Todo dia eu olhava e não tinha nada. Um dia pensando que não tinha nada, vi a sombra de uma menina sentada. Olhei pra cima, aonde ela estava? &#8212; Bom dia, que fazeis aí solitária? Ela moveu [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Atrás de casa tinha uma árvore,</p>
<p>atrás da árvore tinha uma pedra,</p>
<p>atrás da pedra não tinha nada.</p>
<p>Todo dia eu olhava e não tinha nada.</p>
<p>Um dia pensando que não tinha nada,</p>
<p>vi a sombra de uma menina sentada.</p>
<p>Olhei pra cima, aonde ela estava?</p>
<p>&#8212; Bom dia, que fazeis aí solitária?</p>
<p>Ela moveu a cabeça, mas não disse nada.</p>
<p>Era um mês de agosto, ventava&#8230;</p>
<p>E aquela menina que ia não era nada,</p>
<p>só um esboço da árvore que desenhava.</p>
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		<title>A Casa de Arame</title>
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		<pubDate>Mon, 21 Sep 2009 05:23:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulovilela</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[a casa de arame]]></category>
		<category><![CDATA[liberdade]]></category>
		<category><![CDATA[poesias]]></category>

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		<description><![CDATA[Hoje vi nascer uma prisão. Vi dedos ágeis,  manejando fios de aço, tecer planos pro teu futuro, pássaro! Penosa habilidade e paciência, que com trapézios e balanços tenta enganar a morte com diversão. Distante dali, um traiçoeiro gorjeio paralisou teu instinto, pássaro! E numa arapuca te fez prisioneiro. Se ao menos desconfiasses, certamente voarias para [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Hoje vi nascer  uma prisão.<br />
Vi dedos ágeis,  manejando fios de aço,<br />
tecer planos pro teu futuro, pássaro!</p>
<p>Penosa habilidade e paciência,<br />
que com trapézios e balanços<br />
tenta enganar a morte com diversão.</p>
<p>Distante dali, um traiçoeiro gorjeio<br />
paralisou teu instinto, pássaro!<br />
E numa arapuca te fez prisioneiro.</p>
<p>Se ao menos desconfiasses,<br />
certamente voarias para onde<br />
não poderiam atrapalhar teu canto.</p>
<p>Agora terás um novo endereço<br />
e pagarás com teu grito de revolta<br />
a enfeitada jaula com comida e água.</p>
<p>Céu de tinta, paisagens emolduradas,<br />
e um novo sol com pingentes de cristal,<br />
as novas coordenadas da casa de arame.</p>
<p>Quanto mais gritares, mais te desejarão.<br />
Mas se por hábito deixares de fazer,<br />
não duvides: apressarão a tua morte!</p>
<p>A eles, pássaro, só serves para isso.<br />
Aquiete-se, então, enganará a todos,<br />
mas não deixes tuas asas atrofiarem.</p>
<p>Esquecerão de ti se pensarem que estás velho,<br />
e distraídos deixarão aberta a porta da tua prisão.<br />
Sabes por onde entra o vento?</p>
<p>Então vá, pássaro! Mergulhe fundo no azul.<br />
É sempre primavera nos arbustos e sustos,<br />
nessa inexplicável alegria do incerto.</p>
]]></content:encoded>
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