Tem alguma coisa errada…
- 20/09/2009
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Tem alguma coisa errada quando se passa horas dentro de um veículo sem se desejar.
Há estatística e cálculo pra quase tudo, mas nunca vi nenhuma que se refira ao “tempo de vida médio” que se perde no trânsito.
Então vou dizer: pra quem passa 2 hs por dia, de segunda à sexta respirando o bafo dos outros, gás carbônico, tetraetila de chumbo. Ou nos veículos particulares só o próprio bafo refrigerado e os dois últimos itens, fora o estresse… se viver 7O, perdeu uns 5 ou 6 anos no trânsito. Não perdeu porque respirou esse monte de coisas, como hipoteticamente se calcula os “anos a menos” dos fumantes, alcoólicos etc.
Talvez alguém não muito afeto a números e estatísticas se confunda com esse “perdeu”, então mudando as palavras, digo: “viveu” alegremente quase 10% de suas vidas dentro de um veículo.
E será que alguém já calculou os milhões de litros de combustível gastos nessas condições? Também que isso interessa? O departamento de trânsito, que tenta cuidar do caos, mas não cuida, não pertence ao Ministério de Minas e Energia, nem do Planejamento ou da Economia. Pra quem não sabe, falo da cidade de S.Paulo, a cidade mais rica do país, onde tudo está ligado à Prefeitura. Temos radares de todo tipo, câmaras, tudo bonitinho e monitorado pra nos avisar quantos quilômetros de lentidão tem a cidade a cada momento. Demais, não é mesmo? Superdemocrático dividir conosco em tempo real os números da desordem ou incompetência.
As regras vão aumentando, o número de proibições, agora mesmo estão fiscalizando a poluição dos carros novos, quer dizer auferindo a indústria automobilística. Quanto aos carros que poluem mesmo …” ah, deixa pra lá”. Tem se ouvido até novas idéias sobre rodízio… Mas nada muda, quer dizer, muda. Só piora. Se alguém argumentar que não é só aqui, que em muitas cidades do mundo se passa o mesmo, tenho que admitir que estão certos, e repito que tem alguma errada nos nossos tempos!
Não trabalho com planejamento urbano, mas não posso admitir que não haja solução pra esse caos em S.Paulo, esse desperdício de vida e do planeta. A indústria não pára de vender carros, carro é objeto de desejo da maioria da população, e a maioria ainda não tem. Daqui a pouco vão proibir a circulação de veículos por dois dias, depois mais um.
Essas medidas são o visionário de acomodados com o pensamento ou de cérebros míopes. Outros pensam que a solução é metrô pra toda parte (falta muito pra isso). A única verdade é que a população cresce, e as mega-soluções estarão sempre atrás dos mega-problemas. Não há outra saída que não seja penosa e dolorida, há que se ter coragem para mudanças profundas no hábito das pessoas, repensar sobre essa insanidade. E mudar. Ou a cidade diminui, nada provável, ou muda-se o horário de funcionamento da cidade, diluindo-se o ir e vir nas 24 hs do dia. Ou outra idéia que não seja o restringir, de um lado, o uso de veículos particulares, e de outro incentivar a fabricação e a compra superfinanciada dos mesmos. Por que não se discute outras idéias?
Não havia vida noturna antes do invento da lâmpada.
4 Comentários em “Tem alguma coisa errada…”
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Paulão.
Você esta certo em tudo. Mas qual a solução?
Entramos pelo caminho errado, não sabemos fazer o retorno. Cidades deveriam ser como teatros, aviões, restaurantes, ter um número máximo de usuários. Grandes metrópolis são desumanas inevitávelmente, mas protegem o individuo da exposição, são ótimos esconderijos. Viver em pequenas comunidades pode parecer melhor, mas obriga o individuo a se relacionar, e se relacionar bem. São poucas as opções nas pequenas comunidades, portanto lá você tem que fazer tudo certinho senão se queima e se inviabiliza. Nos grandes centros o individuo é ninguém, não tem obrigações para com as outras pessoas só para com o governo e o patrão. Por isso prefere abrir mão das horas perdidas no transito, nas filas, nas burocracias inuteis mas como recompensa fica livre de ter que dizer bom dia para o vizinho.
Nós que somos estrageiros nesta terra, que baixamos nela apenas em esporádiacas visitas, achamos tudo muito louco. Mas ouso dizer, nós, adiantes que estamos no caminhar dessa humanidade tola, podemos apenas rir desse simulacro de vida que levam e defender nos fronteiras contra seus pares.
Abração.
Vc tem razão quando diz em outras palavras que é fácil não dizer “bom dia” no lugar que as pessoas se escondem nos seus desamores. Perdeu-se a prática, falta humanidade nos humanos, falta amor, vivemos numa multidão de estranhos cheios de medo. Diz-se que Da Vinci falava que ninguém poderia ser feliz nas cidades com mais de 5mil habitantes. Imagina…?
Aqui no nosso país as cidades incharam, 50 anos atrás havia mais ou menos 90% das pessoas em z.rural e 10% nas cidades. Hoje é ao contrário. Alguns lugares do mundo, percebendo essa tendência, criaram muitos incentivos pra manter o homem no campo, subsidiando a agricultura etc., muito mais barato que o custo das desapropriações nas cidades com o alargamento das vias etc. Ou a construção de hospitais, aumento do judiciário, das prisões, só para os acidentados da violência decorrente dessa inversão geográfica.
Quem quer viver no campo sem atrativos, sem trabalho, sem perspectivas? Escrevi sobre o trânsito, as horas perdidas, e creio que uma forma de “diminuir” a cidade é pulverizar os horários padrão do trabalho nas 24hs do dia, reescalonar tudo, outros hábitos, até que a cidade pare de crescer e dê tempo à outras soluções.
Paulo Infelizmente ” brasileiro e apaixonado por carros” lembro-me desta frase em um anuncio de alguma distribuidora de combustivel. Hoje muitos reconhecem as pessoas pelo carro e nao pelos seus feitos. entao e claro que cada vez mais brasileiros comprarao ou trocarao seus veiculos, somado ao incentivo do financiamento e a ganancia das vendas so vejo uma solucao: ou investe-se em educacao ou inventam-se veiculos que possam tambem voar
Engraçado… hoje msmo, dia 29/01, já depois do aumento do preço da passagem de ônibus aqui em São Paulo capital, minha filha , que acabou de tirar carta, fez a seguinte conta : poxa, gastar quase 10 reais de passagem por dia ( pode ser mais se tiver que pegar metrô), para ficar num engarrafamento, amassado, com calor, sentindo bafo quente ( e geralmente fedido) no cangote….dá para entender porque assim que pode qualquer um sai correndo atrás de comprar um carrinho…..”"você vai ficar no trânsito, mas pelo menos ouve uma musiquinha, fica no ar condicionado, pode dar uma carona para uns 2 ou 3 colegas, e se cobrar menos que o preço da passagem, sua gasolina ainda pode sair de graça”…. É duro, mas infelizmente são as opções que vão se apresentando ao paulistano…