Um café e uma história

— Minha família nunca vai poder ter um Café! Esses novos russos conseguem qualquer coisa, eles têm contatos com os antigos dirigentes do partido, compram qualquer um.

Falando em espanhol, a professora de história da Universidade de Moscou me contava o que ocorria naquele momento na Federação Russa. Falava dos executivos que andam com maletas e celulares, com uma certa mágoa dos caminhos tortos que enveredava a mudança brusca do regime sovético.  Num certo momento disse que adorava italiano, mas não tinha tempo, nem dinheiro para aprender.

— Por que não assiste a RAI? Perguntei-lhe.

— Gostaria, bem que gostaria, se morasse num apartamento com sacada… Fiquei imaginando a relação de satélite com sacada e disse que não entendia o que uma coisa tinha a ver com a outra.

— Logo se vê que não é daqui! Falou de pronto, explicando que a antena de TV, na cobertura do prédio, é só pôr pra sumir no mesmo dia. Eles roubam tudo. Completou lacônica.

— Eles, quem? Insisti.

— Ora, os russos, meus vizinhos, qualquer um. É só subir no teto, cortar os fios e pronto. Não temos porteiros, zelador, chaves… Depois nunca tive um pai que pudesse ajudar. Desabafou meio constrangida, e continuou falando…

— Enquanto os norte-americanos tiveram a América e a Ásia para financiar seus projetos mirabolantes, nós só tivemos a nós mesmos. E o que nos caberia pelo esforço coletivo se queimou no combustível dos foguetes, na fabricação de armamentos da guerra das estrelas. Poderia ter sido diferente? Talvez sim, talvez não, mas esse socialismo estagnado abriu espaço para uma escória sem precedentes.

Saímos do Café, tinha acabado de conhecê-la, podia ser um tchau ali na porta, quando me perguntou se não queria acompanhá-la até a casa do seu avô. Por que não iria? Pelas ruas centrais de Moscou fomos até a Estação Kiev.

Naquele momento no Parlamento russo discutia-se as leis de propriedade privada ao mesmo tempo que o Estado vendia os apartamentos funcionais aos usuários. Ainda não havia uma polícia civil, nem advogados ou juizes, menos ainda Cartórios. Empresas particulares surgiam rápido e até a emblemática fábrica de vodka estava sendo privatizada. O mundo dito civilizado desabou sobre a União Soviética de uma só vez, percebi isso muito claramente quando vi, na esquina da Praça Vermelha, diante de uma loja de roupas cuja vitrine inteira fora montada sobre uma foto expandida de N.York, com a estátua da liberdade e tudo, numa cadeira de rodas um soldado sem as pernas , com uma bandeira americana no ombro, pedindo esmolas.

Chegamos ao metrô. Nunca vira escadas rolantes tão largas e longas. As linhas a 7Om de profundidade foram construídas para servir de abrigo de ataques aéreos.

— Cabe toda a população de Moscou nas estações e túneis, mas isso foi feito antes da bomba atômica. Disse a professora.

Enquanto descíamos aqueles monstros de aço e aguardávamos o trem, absorto com os lustres de cristal de rocha e a colheita do trigo nos mosaicos do teto da estação, veio-me uma estranha imagem, como um filme em PeB:

Era um menino camponês, um daqueles paupérrimos quando os tzares desapareceram. Um menino que assistiu à uma revolução de princípios e esperou anos por uma habitação razoável, uma comida razoável, uma educação e medicina decentes. Mais tarde, como engenheiro, projetou armas para a Segunda Guerra e lutou sem saber bem contra o quê, quando viu jovens estraçalhados por bombas que nunca pensou existirem. Mas sobreviveu, voltou como herói e foi condecorado pelo Estado. Anos depois perdeu o único filho nas mãos de uma polícia que cumpria ordens que ele não entendia.  Ainda assim seguiu sonhando com um mundo justo e uma vida possível até assistir a União Soviética entrando na guerra fria, construindo usinas e bombas atômicas, depois vendo o Sputinik, a Laica, o Yuri, o Valèry batendo todos os recordes mundiais… e Chernnobil vazando. A vida possível se esvaía.

As portas do trem se abriram. Em dois minutos setenta anos da história russa se passou na minha mente, se existisse um menino assim, aonde andaria ele entre tantos sonhos vãos e noites brancas tão geladas?

No vagão barulhento continuamos conversando, e cinco ou seis estações depois descemos. Caminhamos ao lado de um parque coberto por folhas secas até um edifício cinza e mal-conservado de um grande conjunto habitacional.  Seu avô morava no décimo quarto andar, o elevador defeituoso só foi até o oitavo, o resto fomos pelas escadas.

Ela tocou a campainha várias vezes até atender um homem pálido, de olhos claros, tão enrugado como jamais vira. Tinha noventa e dois anos, era diabético, meio surdo, coxo, ranzinza e só falava russo. Olhou-me como se eu fosse um E.T. e fechou a porta rispidamente. Ela disse ao velho que eu era do Brasil, que estava só de passagem visitando a Rússia, ao que ele não deu a mínima, interessado que estava na sopa que a neta lhe trazia.

Só ouvi eles se comunicando em russo, o velho parecia meio inconformado com alguma coisa. Não ficamos ali nem dez minutos, algo me incomodava, a mim pareceu uma eternidade.

Quando retornávamos de metrô ao centro passamos por uma grande ponte metálica. Apontando com o dedo ela disse que aquela tinha o nome do seu avô, homenagem do exército russo ao engenheiro que a projetou. Levei um puta susto, fiz a contas… O velho teria uns quinze anos quando Nicolai morreu. Encabulado, perguntei-lhe quando perdera o pai. Ela que era risonha e falante ficou séria, olhou-me de soslaio…

— Por que?

O trem apitou, era a estação Kiev novamente.

—Estou atrasadíssima (olhando o relógio), não posso perder o dentista, amanhã ao meio dia nos encontramos aqui mesmo. E saiu correndo assim que as portas do trem se abriram.

No dia seguinte ela não apareceu, nem no outro. Durante uma semana voltei inutilmente a estação no mesmo horário. Nem seu nome sabia. Nunca gostei de coisas pela metade, estava frustrado, desacorçoado, e resolvi voltar ao apartamento do velho. O parque continuava cheio de folhas, mas todo o quarteirão estava cercado, os edifícios cobertos por tapumes,  parecia uma grande obra pública e a impressão que ali não morava ninguém havia muito tempo.

Moscou – Novembro, 1994

3 Comentários em “Um café e uma história”

  • eliane comentou no dia 26/03/2010

    a guerra explícita e declarada, de domínio público, destrói povos, pessoas e espaços … tem data, início, fim…. e o que falar das guerras surdas e quiças mais destruidoras que enfrentamos no nosso cotidiano onde almas e mentes
    se corrompem, e como ácido corroem seres e amores pelas invejas, desumanidades ou por puro prazer?
    bjs.
    Eliane PS: quanto ao mundo mágico de sua história não é de arrepiar, sorte sua que convive em diferentes tempos
    e em outros espaços…

  • eliane comentou no dia 26/03/2010

    no comentário anterior leia ‘arrepiar” e não como constou…
    bjs.
    Eliane

  • tania comentou no dia 26/03/2010

    No Capitalismo de Estado ou no Capitalismo Moderno, a guerra, explícita ou surda, destrói os sonhos do ser humano. E como canta FAGNER, em trecho da música “Guerreiro menino”, ”…UM HOMEM SE HUMILHA
    SE CASTRAM SEU SONHO
    SEU SONHO É SUA VIDA
    E A VIDA É TRABALHO
    E SEM O SEU TRABALHO
    UM HOMEM NÃO TEM HONRA
    E SEM A SUA HONRA
    SE MORRE, SE MATA
    NÃO DÁ PRA SER FELIZ
    NÃO DÁ PRA SER FELIZ”.

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