VERGONHA
- 10/02/2010
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O filme holandês premiado com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro – CARÁTER, e O HOMEM MAU DORME BEM, de Akira kurosawa, têm roteiros muito distintos, mas sub-repticiamente têm algo em comum, ambos falam sobre o conviver com culpas e não-culpas. O primeiro fala de um homem que tenta reconquistar uma mulher que é “caráter antes de tudo”, e que não o perdôa; o segundo, mostra um homem que troca de identidade com um amigo pra se aproximar do assassino do pai, homem sem escrúpulos, e fazer justiça com as próprias mãos.
Erasmo de Roterdã no seu Elogio À Loucura, diz que dores de amores cada qual sente à sua maneira, um pode não perdoar, outro nem ligar, outro ainda chegar ao extremo de matar os envolvidos e a si mesmo, porque isso varia com a formação do indivíduo, tipo de sociedade etc., mas uma pedrada na cabeça dói igual a qualquer um, e a dor de uma pedrada não gera culpas no atingido.
Não deve haver mesmo nesse mundo alguém sem defeitos, mas há coisas que não se perdoa em nenhuma sociedade, coisas que não dependem da estrutura social, como matar sem motivo, roubar de quem nada tem, humilhar pessoas seja pelo aspecto cultural ou econômico, maltratar animais indefesos, lesar a pátria com negócios escusos pra benefício próprio, se passar por outra pessoa pra ter o reconhecimento que não pode ter.
O indivíduo armado vai roubar… e rouba, depois, sem nenhuma adversidade, olha pro cara e dá um “tec”. O que se pode pensar sobre a personalidade de um tipo assim? Ou de um que rouba o tênis sem marca e o dinheiro da condução de um operário na estação do trem às 6hs da manhã? Ou do motorista que desvia da sua faixa na direção de um quatro-patas para atropelá-lo?
J.J.Rosseau no Discurso Sobre a Origem da Desigualdade Entre os Homens diz que o homem nasce bom, e a sociedade o perverte. É uma idéia, mas se é fato que nas sociedades mais pobres e menos justas essas pessoas proliferam como moscas, e a sociedade tem grande responsabilidade por essas crias deformadas, nas comunidades mais desenvolvidas esses criminosos “sem culpas” também existem, e caímos num abismo se pensarmos que o homem já nasce mau, porque então vivemos num zoológico sem jaulas.
Agora, diferentemente desses monstros “sem culpas”, há os polidos e bem-vestidos, que lesam a pátria com suas “negociatas”, emprobrecendo todos os demais, e os que mentem descaradamente dizendo ao mundo que fizeram coisas que não fizeram nem têm condições de fazer, apropriando-se de direito autoral, e recebendo os louros que não lhes pertence. Ambos, quando não são psicopatas (normalmente são), têm remorsos mais cedo ou mais tarde e até mudam o rumo de sua vidas, está cheio de exemplos conhecidos, mas nunca devolvem o que se apropriaram, nem dinheiros, nem a identidade roubada. Podem enganar suas mulheres, seus filhos, meia dúzia de amigos, vizinhos, e até um povo inteiro, por certo tempo, mas não a si mesmos.
Claro que se forem psicopatas vão dormir em paz até o último dia de suas vidas, sortudos que são, eximidos de culpas, se o destino não lhes reservar algo trágico dos lesados.
Não pude evitar de colocar os ladrões de direitos autorais entre os “imperdoáveis”, porque projetei e fiz obras que os proprietários usaram o meu conhecimento, talvez a minha arte, a minha dedicação, mentindo a todos os seus conhecidos como autores das suas fantasias. E penso nos milhares de cigarros que fumei, nas noites que fiquei acordado pra lhes dar o melhor de mim, no tempo todo que não soube; depois, no tempo que fiquei calado, porque a vida é pra frente. Talvez seja o mal de ser democrático, mas imaginava se tratar de casos isolados, até que esta semana soube de mais um arquiteto de mentirinha. Pobre mundo doente!
5 Comentários em “VERGONHA”
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Como dizia Michelangelo: “Se as pessoas ao menos soubessem o quão duro trabalho para ser mestre, não lhes pareceria tão maravilhoso”. Rejubile-se. Todos querem possuir talentos, mas nem todos são contemplados com um dom privilegiado!
É, Tania, quem lida com sonhos está sujeito a pesadelos.
Se há quem acredite nesses mentirosos é porque não os conhecem o suficiente para saber que estão mentindo. Além disso, convenhamos, diante de uma obra sua, somente um idiota pode acreditar que a idéia foi do cliente mentiroso.
Na classe artística isso é muito comum. Aliás, repensando melhor, essa chupação existe em todo lugar, em qualquer ação ou trabalho criativo. “Agrega-se” a idéia do outro e incorpora-se ao seu “talento”. Pratos de chefs, cálculos de engenheiros, linhas de arquitetos, texturas de artistas, modelos de designers, tanta coisa. Uma parte disso pode ser o primeiro passo para o nascimento de outra idéia, mas pegar o trabalho do outro e simplesmente apropriar-se dele dando-lhe seu nome é cruel, desonesto e passível de processo. Deve doer fundo.
Como artista sabe bem que isso acontece, muito bem lembrado e bem colocado, Renata! É o “nada se cria, tudo se copia” com alguma coisinha a mais. Curioso que escrevi sobre “culpas” e “não culpas” e o que, a meu ver, não se perdoa em nenhum lugar, mas o que chamou a atenção foi esse meu final. abs…